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14 de dezembro de 2014

FILME: Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1


Nota: 8/10

O terceiro filme da franquia “Jogos vorazes” chega ao cinema de forma corajosa e competente, sendo um bom entretenimento para o público jovem. A esta altura, todos já sabem a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e sua saga em unir os distritos contra as formas de opressão impostas pela Capital, responsável por manipular a mídia, promover a desigualdade no acesso às riquezas e comandar os temíveis jogos (ideologia para que os distritos se vejam sempre em tom de competição, como ocorre, por exemplo, no futebol, obviamente em outras proporções, mas de igual fundamento).

Há que se destacar as atuações (o filme é de Lawrence) e o capricho na produção deste capítulo. O tom sombrio, os destroços quando a base é invadida, os meios de transporte e de comunicação, tudo faz imergir àquele mundo fantasioso. Inclusive, a divisão deste capítulo em dois foi aproveitada de forma satisfatória, para aprofundar os personagens. Tudo direitinho, inclusive nos diálogos que remetem aos tons políticos do século XX, de um lado o fascismo e de outro a massificação da informação.

O grande problema da obra é que o argumento contem furos que apenas se encaixam se tivermos muita disposição para aceitar a superficialidade traçada pela história, afinal, feita para introduzir os jovens neste dilema. Sendo assim, toda a problematização se faz ao nível de discurso. O que se quer dizer com isso é que a política se aparta de qualquer ideia de materialidade e de sopro de vida e necessidade que se podem vislumbrar no controle daqueles corpos humanos: não se questiona o artefato bélico à disposição dos distritos, seus níveis de suprimento, a tecnologia fantástica que dispõem. As armas, as construções, enfim, tudo parece tão natural. De certa forma, a alienação tão questionada está presente para quem quiser conferir, só não espere isso do roteiro. O objeto questionável, torna-se, ele mesmo, a imagem que aqui consumimos.

Da mesma forma, o lado da Capital também tem ao seu dispor todo um aparato técnico, e a política se aparta da realidade concreta para dar voz a ela mesma. Com isso, “Jogos vorazes” é um embuste, pois seu discurso se assenta num simulacro de imagens e de posições de poder que jamais ganham força além de toda aquela superficialidade. Para piorar, líderes e todo o grupo revolucionário ficam demasiadamente à mercê da decisão individual de Katniss, por exemplo, e isto só serve mesmo para reforçar o que o filme se propõe (ao contrário), pois ao questionar a individualidade versus a massificação, se utiliza de elementos óbvios, românticos e de fácil assimilação.

No entanto, ainda que apartado do mundo do trabalho e da origem de todas as construções sociais que obviamente sustentam qualquer tipo de agrupamento humano, o roteiro inteligentemente não se torna maniqueísta a ponto de deflagrar uma guerra do bem contra o mal. De fato, tanto de um lado quanto de outro se está à mercê de pessoas, de grupos, de discursos que se digladiam pelo poder. A interpretação dúbia da protagonista não apenas convence, mas é realizada de forma magistral, e não sabemos ao certo a que fundamentos se sustentam os discursos da liberdade e da opressão. Neste sentido, reviravoltas podem ser pressentidas, e o roteiro acerta em suas escolhas, em deixar a dúvida tomar conta, em valorizar o telespectador instigante.


Pelo menos, é bem mais reconfortante saber que os jovens podem introduzir tal discussão a partir de tal obra, do que provavelmente tentar extrair algo de mais densidade em séries como Crepúsculo, por exemplo. Neste sentido, ao lado de “Divergentes” e “Maze runner”, estes “Jogos vorazes” se apresenta como o mais completo, o mais bem produzido, ainda que falho em seu sistema de referência.

Filme: O Grande Gatsby



Nota: 8,5

Adaptação do romance emblemático de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925, “O grande Gatsby” se apresenta, de cara, com cenários luxuosos, radiantes, exagerados, histriônicos. A primeira meia hora é de tirar o fôlego, os personagens sendo apresentados abruptamente, câmeras com cortes rápidos, muitas cores. Era de se esperar algo assim de um diretor que tem no currículo o também exagerado “Moulin Rouge”.

O filme conta a história do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) pelos relatos do seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire), ambos muito bem no papel. Gatsby, na verdade, passou uns anos fora dos EUA, e voltou a sua terra para resgatar um amor do passado, Daisy (Carrei Mulligan, destaque em “Drive” e “Shame”), embora ela esteja casada. Gatsby faz de tudo para chamar a atenção dela, promove festas escandalosas, se envolve na mais alta sociedade, teve que enriquecer, ostentar (essa premissa é trabalhada de forma deliciosa pelo roteiro, pois nos perguntamos se isso basta, sem que tal questionamento seja lançado diretamente em nossa cara), ainda que sua solidão e sua obsessão o consumam, e o filme engrena quando Gatsby e Nick se aproximam, já que Nick serve como uma ponte até Daisy, uma vez que são primos.

O problema desta produção reside mesmo no seu ritmo frenético inicial, que não se sustenta em toda a projeção. A velocidade das apresentações, exceto a de Gatsby, e a pomposidade das festas, para deixar claro ao telespectador que se trata de um sujeito rico, extravagante, porém carente, parece mesmo ser muito forçado, e demasiadamente superficial. Até então, é sua mansão e suas festas que são, talvez, os protagonistas do filme, e o telespectador fica aguardando conhecer o tal fanfarrão. Como Gatsby esbanja sua riqueza de forma peculiar, já que ele jamais é o centro das atenções nas festas em que promove, e sequer convida seus hóspedes, estes se apresentam de forma espontânea, o roteiro se utiliza desse fato até a sua primeira aparição em tela, mantendo o clima gostoso de suspense até o romper do protagonista, e é aí, a partir da sua aparição, que os idealizadores pisam no freio e conseguem imprimir um ritmo mais interessante à obra: sem deixar de lado as tomadas dinâmicas, mas se valendo de diálogos certeiros e atuações incríveis, o filme melhora em todos os seus aspectos, sendo fantástico em tudo o que se propõe. Aliás, destaque para músicas pop (“A little party never killed nobody”), o que realmente foram super bem encaixadas, cabendo até mesmo imaginar como seria um musical desta obra.

Gatsby construiu sua riqueza pela guerra, pelas relações informais com banqueiros de Wall Street, e tudo isso não apenas fascina, mas passa pelo crivo moral da sociedade americana. Não nasceu rico, toda sua riqueza foi construída. E o trabalho, como se sabe, jamais poderia ser sua fonte de ouro. O que Scott fez aqui foi brilhante: trouxe um novo rico, que cresceu através de mecanismos espúrios, e ainda assim o enredo não o torna culpado pelas próprias vicissitudes. Até mesmo porque, Gatsby tem outras qualidades, e quando olhamos ao redor dele, numa Nova York filmada com cores escuras, paisagens grotescas, trabalhadores decadentes, poluição visual, recuperando-se da queda da bolsa, onde o sistema financeiro se tornou o centro das relações de poder, tudo parece levar a crer que não há anjos e demônios neste mundo de glamour. E o roteiro (tanto no filme, quanto no livro) inteligentemente não é maniqueísta. Como exemplo, veja-se o marido de Daisy, Tom (Joel Edgerton), um racista típico, vangloria-se pela sua posição social, e toda sua mediocridade soa como natural. De fato, lá pelas tantas da projeção, nem sabemos pra quem torcer (o que seria algo típico de uma visão que separa vilão e mocinho, o que não é o caso), e apenas estamos interessados no desfecho dos personagens, anjos e demônios de si mesmos.

O romance entre o casal protagonista, portanto, por mais que tenha suas pitadas de tudo o que poderia ser de mais meloso, com o mocinho voltando às terras norte-americanas com a glória feita, rico, esbanjando em festas, feito um pavão para chamar a atenção da mocinha infeliz, tudo isso, na verdade, é invadido pela vida, pelo imprevisto, pelos bens materiais questionáveis, pelas condutas questionáveis. Acompanhamos tudo pelo olhar de Nick, e ele mesmo se encabula de ter feito “um único” elogio a Gatsby. No fundo, ele e nós questionamos esta conduta de bom moço, e parece que Nova York realmente não tinha algo melhor a oferecer. Ao final, ficamos apáticos pelo desfecho do personagem, um futuro que não se concretizou, e um presente que sempre nos escapa. Nada de idealizações, afinal. Esta é a vida!


Se não fosse pelo começo demasiadamente corrido e com cores que de tão exuberantes ficaram duvidosas, seria uma obra-prima. Na dúvida, o livro de Scott Fitzgerald certamente o é, e o desenvolvimento deste Gatsby feito por um Luhrmann que não perdeu sua subjetividade, sua visão única, seu cinema dinâmico, já vale muito.

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