Pesquisar este blog

15 de novembro de 2014

Filme: os suspeitos


NOTA: 8,5/10


Não esperava nada deste filme, mal conhecia o diretor Denis Villeneuve. Fui assisti-lo com a desconfiança das duas horas e meias de suspense não poderem se sustentar, pois é preciso muita habilidade para segurar a tensão do início ao fim. E deu certo!

Todo o clima construído sobre a obra me lembrou muito Sobre meninos e lobo (Mystic River, 2003) do genial Clint Eastwood, mas muito superior a este, uma vez que não se sustenta em uma moral deslocada, nem em um pessimismo pungente... Não causa mal-estar, e ainda assim consegue levar às telas as reflexões morais necessárias e provocar aquela agonia típica de filmes deste gênero.

O roteiro gira em torno do sumiço de duas garotinhas no dia de Ação de Graças, filhas dos Dovers e Birchs. Keller Dover (Hugh Jackman) assume o papel do pai desesperado, clamando por justiça, e o faz mesmo quando a polícia, encarnada aqui no papel do detetive Loki (Jake Gyllenhaal) solta o principal suspeito do caso, o estranho Alex Jones (vivido por Paul Dano). 

A partir daí, tudo fica mais interessante, uma vez que a busca pela justiça se depara com as questões morais, isto é, se depara com os meios pelos quais se tentam arrancar verdades baseadas em suspeitas que não se confirmam: com a ajuda de Franklin Birch (Terrence Howard), o qual funciona no roteiro de forma a sempre questionar os métodos que serão vistos em tela, Keller aprisiona Alex numa tentativa desesperada de tentar arrancar-lhe as supostas verdades. Então, aqui encerro um questionamento: tanto o título "os suspeitos", quanto o original "prisioneiros", fazem jus à obra. "Os suspeitos" da perspectiva de que não sabemos ao certo o responsável pelo sumiço das garotas, e mesmo os pais, enquanto vítimas, de um ponto de vista legal e moral, também são suspeitos de cometer crimes em completo desagravo aos direitos humanos, assim como prisioneiros de seus dilemas, não somente aprisionados fisicamente, mas sobretudo psicologicamente. E nós, meros telespectadores, prisioneiros daquele drama familiar, e suspeitos por estarmos jogando com a moral de Keller, absolvendo-o algumas vezes, mesmo nas mais cruéis atrocidades, as quais exigem urgência e medidas drásticas.

Métodos de tortura são jogados na nossa cara, e acabamos questionando tudo, sem saber ao certo de que lado estamos. Não espere um filme fácil de vilões e heróis, ainda que Holly Jones (Melissa Leo), a tia de Alex, quase leve tudo a perder no terceiro ato. Outro grande destaque é a personagem de Viola davis, tenho um carinho especial por essa atriz, e sua atuação é fantástica: "Não vamos mais ajudar Keller, mas não vamos impedi-lo", numa atitude que prova que o "em cima do muro", na verdade, nunca é neutro. 

Aqui os personagens estão bem construídos, e Hugh dá um show à parte com seu papel de moral ambígua. Destaque também para a trilha marcante e para a fotografia, indicada ao Oscar, que realmente conseguem passar a serenidade necessária. Uma grande pena que o didatismo e a urgência de conclusão em volta de Holly Jones tenha prejudicado o saldo final, mas quando o filme termina, numa solução interessantíssima, vemos que não passou de mero detalhe: há elementos muito mais interessantes na película, que a torna uma experiência incrível.


Publicada no site do Cineplayers em 27/10/2014:
http://www.cineplayers.com/comentario/os-suspeitos/38621

Filme: Made in China


Nota: 3/10

Lixo multiculturalista resume esta obra. É bem verdade que fui assistir a “Made in china” com baixas expectativas, já que eu sempre tento valorizar um bom e despretensioso entretenimento vindo de uma comédia nacional de leve. Mas não é o caso aqui: é muito ruim.

Regina Casé é a protagonista deste longa. Longe das telas do cinema deste “Eu, tu, eles”, Regina se firmou nos últimos anos como apresentadora da TV Globo à frente da atração semanal chamada “Esquenta”, cujo bordão do programa, “tudo junto e misturado” (repetido várias vezes também nesse filme), é um ode à miscigenação e à multiculturalidade do povo brasileiro, de deixar antropólogos do quilate de um Lévi-Strauss, encantados. Nesta projeção, Regina encara Francis, vendedora da loja “São Jorge”, cujo dono é descendente de libanês (o que remete ao período da imigração do início do século XX). A loja começa a sofrer forte concorrência dos produtos chineses, os quais buscam cada vez mais ampliar seus negócios, nem que seja tomando os estabelecimentos comerciais dos concorrentes (estes são propriedades de judeus, armando uma mistura multiétnica sempre clara ao telespectador).

Bem, apesar dos óbvios clichês referentes ao país de origem, o tom politicamente correto do filme não dá margem a piadas grotescas e preconceituosas, ainda que se utilize de estereótipos. Além disso, o roteiro acerta em inserir falas em mandarim, deixando o público deliciosamente perdido. Mas os pontos positivos terminam por aí. O tom despretensioso e de bons amigos do filme é seu maior algoz: o comércio na China arrebenta não apenas a economia brasileira, mas é alvo de controvérsias em todo o mundo. Obviamente, há muito alarde para tal situação, uma vez que a China representa uma séria ameaça à hegemonia norte-americana, contudo, é fato que muito do sucesso do barateamento dos produtos chineses se deve às péssimas condições trabalhistas do país, incluindo trabalho escravo e infantil de sua mão-de-obra. O caso da Nike e, mais recentemente, da Samsung, esta último embargando os fornecedores chineses, são exemplares da importância do tema.

E o filme passa por cima de tudo isso. A única explicação que dá para a concorrência desleal dos produtos importados orientais se deve à caricatura do dono da loja, o qual exige “trabalho demais”. Aqui, entra o mito do trabalho árduo, não sob a perspectiva crítica, mas pelo trabalho em si. Para completar, a solução encontrada no filme é uma deturpada visão maniqueísta do ocidente versus oriente, e aquela já famosa ideia do quanto os brasileiros são apimentados, luxuriosos e liberais.

 Além das atuações ruins, fica mesmo a ideia de que a aldeia global pode muito bem apartar seus conflitos quando se festeja o multiculturalismo sem perspectiva crítica alguma. As questões sociais e trabalhistas na China são questões seríssimas, pois se trata hoje da economia que mais cresce no mundo, do maior mercado consumidor do mundo, redefinindo e pondo todos a pensarem nas novas configurações geopolíticas, assentadas no pensamento neoliberal, e seus impactos sob as regulações trabalhistas e dos mercados. Como o roteiro se utilizou do humor para contar a história, além de não trazer piadas engraçadas e atores talentosos para tal, fecha completamente os olhos para a realidade. É tudo muito infantil e amador. Mesmo na cena em que um personagem é quase preso por ter molestada uma menor, um simples depoimento contrário já o liberta, sem qualquer explicação. Ou seja, é o tipo de filme que não adianta ser exigente, mas também não precisava ser imbecil.

Não sei se foi um erro levar a sério esta produção. Ocorre que o tema central é demasiadamente interessante, está na pauta internacional, inclusive sendo alvos de calorosos debates das instituições multilaterais. E por mais que você vá assistir ao filme despojado de todo esse sentimento crítico, o que sobra é uma comédia (?) rala, sem piadas interessantes, atuações ruins, pois a trama envolve justamente a busca do motivo pelo qual os produtos chineses são tão baratos, ganhando constrangedores cenas de uma “Regina Casé detetive” (o que foi aquela perseguição? Vergonha alheia), para, ao fim, entregarem o cúmulo do superficialismo, um trabalho completamente cego à realidade. Será mesmo que o ode ao multiculturalismo estaria arriscado se o filme fosse mais corajoso, em apontar o dedo nas feridas, em apontar um mínimo de discernimento? Acredito que não.


Se você é conhecedor dos problemas da globalização (nem que seja por ler a Veja), ou se você espera pelo menos rir de um filme que se intitula comédia nacional, passe longe desse exemplar. Agora, se você assiste assiduamente ao Programa “Esquenta”, e consegue ser feliz ao exaltar o samba, o funk, a favela, sem demonstrar qualquer perspectiva crítica (o que, convenhamos, mesmo o programa televisivo às vezes consegue dar uns bons toques), então talvez você aprecie este trabalho, feito mesmo apenas para fomentar o marketing de uma suposta brasilidade cordial, como diria Buarque de Holanda (“O homem cordial”, livro da década de 1930). E ele não estava nos exaltando, mas simplesmente demonstrando o quanto ainda somos cegos socialmente.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...