Certa vez meu psicólogo me perguntou do que eu mais sentia
falta, sendo um gay convicto, no que se refere à relação que tinha com a minha família.
Não demorei muito para responder. Meus pais, optei desde cedo, logo souberam da
minha orientação, embora este fato pudesse perfeitamente ter passado
despercebido, dado o silêncio ingrato que nos cercava. Por esse motivo, tudo
que eu mais sentia falta era simplesmente de poder levar meu namorado em casa,
apresentá-lo aos meus pais, convidá-lo para jantar e quem, sabe, assistirmos
juntos à novela das 8. Tão típico.
E olha que, durante um bom tempo, sofri diversas agressões
verbais, e até ameaças. Mas passada a novidade que a saída do armário causava,
a relação com meus pais se resumia ao básico, e nunca citava sequer o nome do
meu namorado, para não trazer tudo à tona novamente. Quando fiquei noivo, tive
de ser discreto, sem compartilhar com eles essa felicidade. Era estranho, mas
não poder compartilhar tais emoções com esses “homofóbicos” singulares era o
que mais me doía.
Mas paremos pra pensar. Parece estranho que eu, um cara tão
crítico, quisesse apenas a caretice de um momento em família, jantar
tradicional, assistindo a programas reacionários e voltados à grande massa? Ora,
pensando bem, era tudo o que eu mais queria, não pelo fato em si, mas pela
companhia: dividir o sofá com o namorado, ainda que a mãe estivesse entre nós,
como se prestes a me proteger. Quem sabe numa final de Copa do mundo ou no Campeonato Brasileiro, ouvindo meu pai xingando o Flamengo do meu noivo e este rebatendo o
Vasco do meu velho? Mas, neste caso, tudo não passava de desejo. Ele sequer me
visitava; a minha casa e minha família lhe eram recintos invioláveis.
E aí vem mais esse infortúnio, o casamento. É estranho você
sentir que não se une a outra família, mas que simplesmente você abandona uma e
parte pra outra. A sua família, grupo primário que o acolhe, não se estreita,
não conhece, não se confraterniza com a família secundária, a quem se decide,
com total liberdade, se unir. Não existe tal encontro quando se vem de família
homofóbica, e as festas que poderia programar, ficam na imaginação. É tudo
tão estéril, não há sociabilidade. Os “sobrenomes” ficam apartados.
Foi o que aconteceu em minha formatura. Como poderia
planejar uma festa sabendo que eu vivia em mundos paralelos? Minha família de
berço, nem por um momento percebe o quanto me machuca não promover o encontro
com a família do meu noivo, por isso mesmo abri mão da festa de formatura. Pelo
visto, a festa de casamento terá o mesmo destino fatídico.
E nesse passo marcham as dezenas de “natais” em que eu me divido,
sem saber ao certo a qual família pertenço, bem como nas confraternizações de
ano-novo, ou nas minhas festas de aniversário, que há anos já desisti de fazer,
já que sempre deveria planejar duas listas de convidados para ambientes
diferentes. Será pior quando tivermos nosso filho, cujos avós, de minha parte,
jamais se farão presentes no aniversário dele, nem no batizado ou na 1ª Eucaristia, nem na formatura, e assim vai...
Sim, certamente o fato de não ter minhas duas famílias
reunidas, é o que mais sinto falta, é o que mais me machuca. Por isso, não
suporto quando escuto parte da ala do movimento LGBT tecendo críticas e mais
críticas quanto à questão do casamento, da união civil entre pessoas do mesmo
sexo, considerando-a “normativa demais”. Na verdade, as pessoas não fazem a
mínima ideia do quanto a breguice e a tradição familiar ainda estão muito longe
de ser um espaço verdadeiramente plural.
Queria ter o direito pleno de ser conservador com minhas duas famílias. Na verdade, queria nunca ter essa sensação de pertencer a duas famílias distintas. Nem depois de casar, creio, me livrarei deste sentimento. Mas isso, não haverá lei que o faça. É um fato eminentemente cultural. E abençoados são os casais que fazem piadas preconceituosas de sogra e genro, na presença de ambos, e podem, ao final, terminar de rir juntos na sala de estar, assistindo, quem sabe, ao último capítulo da novela mais calhorda da Tv...