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15 de outubro de 2013

Família, família: papai, mamãe e homofobia



Certa vez meu psicólogo me perguntou do que eu mais sentia falta, sendo um gay convicto, no que se refere à relação que tinha com a minha família. Não demorei muito para responder. Meus pais, optei desde cedo, logo souberam da minha orientação, embora este fato pudesse perfeitamente ter passado despercebido, dado o silêncio ingrato que nos cercava. Por esse motivo, tudo que eu mais sentia falta era simplesmente de poder levar meu namorado em casa, apresentá-lo aos meus pais, convidá-lo para jantar e quem, sabe, assistirmos juntos à novela das 8. Tão típico.

E olha que, durante um bom tempo, sofri diversas agressões verbais, e até ameaças. Mas passada a novidade que a saída do armário causava, a relação com meus pais se resumia ao básico, e nunca citava sequer o nome do meu namorado, para não trazer tudo à tona novamente. Quando fiquei noivo, tive de ser discreto, sem compartilhar com eles essa felicidade. Era estranho, mas não poder compartilhar tais emoções com esses “homofóbicos” singulares era o que mais me doía.

Mas paremos pra pensar. Parece estranho que eu, um cara tão crítico, quisesse apenas a caretice de um momento em família, jantar tradicional, assistindo a programas reacionários e voltados à grande massa? Ora, pensando bem, era tudo o que eu mais queria, não pelo fato em si, mas pela companhia: dividir o sofá com o namorado, ainda que a mãe estivesse entre nós, como se prestes a me proteger. Quem sabe numa final de Copa do mundo ou no Campeonato Brasileiro, ouvindo meu pai xingando o Flamengo do meu noivo e este rebatendo o Vasco do meu velho? Mas, neste caso, tudo não passava de desejo. Ele sequer me visitava; a minha casa e minha família lhe eram recintos invioláveis.

E aí vem mais esse infortúnio, o casamento. É estranho você sentir que não se une a outra família, mas que simplesmente você abandona uma e parte pra outra. A sua família, grupo primário que o acolhe, não se estreita, não conhece, não se confraterniza com a família secundária, a quem se decide, com total liberdade, se unir. Não existe tal encontro quando se vem de família homofóbica, e as festas que poderia programar, ficam na imaginação. É tudo tão estéril, não há sociabilidade. Os “sobrenomes” ficam apartados.

Foi o que aconteceu em minha formatura. Como poderia planejar uma festa sabendo que eu vivia em mundos paralelos? Minha família de berço, nem por um momento percebe o quanto me machuca não promover o encontro com a família do meu noivo, por isso mesmo abri mão da festa de formatura. Pelo visto, a festa de casamento terá o mesmo destino fatídico.

E nesse passo marcham as dezenas de “natais” em que eu me divido, sem saber ao certo a qual família pertenço, bem como nas confraternizações de ano-novo, ou nas minhas festas de aniversário, que há anos já desisti de fazer, já que sempre deveria planejar duas listas de convidados para ambientes diferentes. Será pior quando tivermos nosso filho, cujos avós, de minha parte, jamais se farão presentes no aniversário dele, nem no batizado ou na 1ª Eucaristia, nem na formatura, e assim vai...

Sim, certamente o fato de não ter minhas duas famílias reunidas, é o que mais sinto falta, é o que mais me machuca. Por isso, não suporto quando escuto parte da ala do movimento LGBT tecendo críticas e mais críticas quanto à questão do casamento, da união civil entre pessoas do mesmo sexo, considerando-a “normativa demais”. Na verdade, as pessoas não fazem a mínima ideia do quanto a breguice e a tradição familiar ainda estão muito longe de ser um espaço verdadeiramente plural.

Queria ter o direito pleno de ser conservador com minhas duas famílias. Na verdade, queria nunca ter essa sensação de pertencer a duas famílias distintas. Nem depois de casar, creio, me livrarei deste sentimento. Mas isso, não haverá lei que o faça. É um fato eminentemente cultural. E abençoados são os casais que fazem piadas preconceituosas de sogra e genro, na presença de ambos, e podem, ao final, terminar de rir juntos na sala de estar, assistindo, quem sabe, ao último capítulo da novela mais calhorda da Tv...

12 de outubro de 2013

Minha Menina


Lembro-me de quando pela primeira vez a vi
Cativou-me seu jeito de criança
Ela me olhou e então percebi
Que me olhava assim, com certa esperança

Toda manhã a via passando
Para a escola alegremente
Com o seu modo de puro encanto
Com o seu jeito de menina inocente.

Eu a conheci no dia de seu aniversário
Tamanha foi a alegria que senti
Meu coração estava perdidamente apaixonado
Era impossível tentar resistir.

Ela percebeu enfim
O grande amor que surgia
Ela aprendeu a gostar de mim
E a me cuidar todo dia.

Enchia-me de beijos e carinhos
E me abraçava intensamente
Com o sorriso mais lindo
Jurava amar-me para sempre.

Mas então percebi que ela havia crescido
Minha menina tornara-se uma mulher
Não queria mais brincar comigo
Trocou-me por um rapaz qualquer.

Ah! Que saudade daquela infância!
Agora, ela nem pensa mais nisso
Hoje é só roupa, maquiagem, namorado e infâmia
Enquanto eu, sua boneca de pano, durmo na lata de lixo.

11 de outubro de 2013

Um quarto (25)


Ao abismo em um quarto de século,
Aceitando que meu quarto é o mundo
Sufocante,
Sem freios e medidas,
Pois não há mobilidade nem gritos de criança.

Não sorrio em festas,
E não danço,
E não entendo as piadas prontas,
A espontaneidade das pessoas,
As letras das músicas,
As bebidas com álcool,
E os doces intragáveis.

Está difícil desejar afeto
E fingir apreço sem querer.
Está difícil mentir.
Está difícil ter o coração aberto
E não senti-lo bater.
Está difícil insistir.
Está difícil arranjar porquês,
E beijar o noivo sem receio.
Está difícil conviver.
Está difícil praticar o desapego
E fingir que não se importa,
Quando o que mais se quer é viver.

(Alan Nina)

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

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