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28 de fevereiro de 2022

A sombra de Stálin - A herança cultural das Fake News e a importância da verdade

Seria a verdade algo único e livre de interpretações? Possivelmente não. Mas até que ponto é possível esconder um fato completamente tangível em prol de um ideal ou de uma justificativa muito maior do que o próprio fato? Aliás, até que ponto o fato pode ser relativizado?

"A sombra de Stálin", filme da polonesa Agnieszka Holland, conta a história de um jornalista que viveu alguns dias o Holodomor, a fome na Ucrânia provocada pela exploração russa naquele território, tendo inspirado o escritor George Orwell e divulgado ao Ocidente os horrores do socialismo.

Certamente o mundo ainda não se livrará tão fácil de governos tiranos e opressores. E aqui, sabemos que a exploração pode ter diversas vertentes ideológicas, infelizmente. Aliás, mais do que o socialismo, o próprio capitalismo experiencia uma naturalização das barbaridades e das narrativas sanguinárias, e se formos parar para pensar, o capitalismo matou mais do que qualquer regime que se diga socialista (em doses homeopáticas, claro).

É estranho viver na Era da Informação e ter as "Fake News" como problema de Estado, capaz de derrubar e sustentar governos, dos mais tiranos aos mais inocentes. Mas cabe a pergunte: é possível pensar em governos inocentes no mundo de hoje? Difícil. Mas exemplos de governos tenebrosos não faltam. O Fato é que o filme "A sombra de Stálin" se debruça naquele que pode ser considerado um dos governos mais tiranos e antidemocráticos que já existiu... no século XX (e talvez perca para o nazismo, para os regimes militares sulamericanos, para Cuba...). É absolutamente assustador perceber que as práticas russas em 1933 não apenas permanecem mais vivas do que nunca, mas foram potencializadas por algoritmos, bolhas e todo um movimento de pós-verdade, que pode confundir-se muito com a "não-verdade" ou com o poder das narrativas (simulacro?) provocado pela sociedade em redes. Até que ponto nos desvencilhamos da verdade?

O Kremlim, em Moscou, nada mais é do que uma "bolha real" capaz de apreender jornalistas, políticos opositores, artistas, intelectuais, submetendo-os a uma narrativa de redenção difícil de digerir. O jornalista galês Gareth Jones, que atuava no governo londrino do primeiro ministro Lioyd George, e já tendo entrevistado Hitler (e percebido nele uma faceta nascente do novo autoritarismo europeu, sutentado pela mídia e pela burocracia), decide por entrevistar Stálin, em especial vai em busca da pergunta de milhões: de onde vem o dinheiro que está erguendo a nação russa? Qual a base econômica do regime soviético?

Naturalmente, há todo um clima de cinema investigativo, para ficar claro ao telespectador que as respostas não parecem simples, ainda que o porta-voz da Rússia, Walter Duranty, ganhador de um pulitzer, tenha deixado claro que tudo se trata de uma rica produção de grãos. Jones, não satisfeito, e já instalado em Moscou, começa a querer investigar melhor as bases do regime, principalmente após seu amigo jornalista, Paul Scheffer, ser assassinado a balas (qualquer semelhança com a jornalista anti-Putin russa Anna Politkóvskaia, assassinada em 2006 na Rússia, não é mera coincidência).

O título em inglês, Mr. Jones, centraliza a história no protagonista, no entanto, é notório perceber como a narrativa se interlaça à obra seminal de George Orwell, "A revolução dos bichos". As cenas do filme são enriquecidas com citações e imagens idílicas sobre o que acontece na fazenda ficcional mais pertubadora do mundo, contribuindo para qualificar a narrativa. Como há um clima de desconfiança muito bem construído, o suspense se instaura sem grande dificuldades, méritos totais da direção de arte e da produção, realmente impecáveis, capazes de nos transportar para a Rússia de 1933 sem grandes dificuldades.

Contando com a ajuda da também jornalista Ada Brooks, uma desconfiada e iludida socialista pró-Stalin (que, aos poucos, vai compreendendo o que é verdadeiramente o regime), Jones consegue ligar o "ouro de Stálin" à Ucrânia, e decide ir até o país para investigar. Aliás, são nos diálogos entre Jones e Ada que acontecem as mais inspiradas tiradas, como quando discutem se há somente uma verdade, ou se alguns fatos justificam-se em função de um ideal mais nobre.

Jones sabe muito bem que se trata de vidas. Como falar em narrativas quando se está diante dos horrores provocados pela fome, chamado historicamente de "Holodomor"? O governo já era bastante criticado pelos acontecimentos na Xexênia, mas absolutamente nada se comparava ao que Jones estava prestes a ver e vivenciar: ao escapar do trem que o levava em "linhas oficias" à Ucrânia, ele chega às comunidades populares, depara-se com a exploração do povo trabalhador, com a fome e o frio extensos, em passagens sufocantes e até mesmo vertiginosas, filmadas sempre com um tom escuro, mesmo na neve. É o socialismo em sua faceta mais cruel (ou seria no seu apogeu?).

De todo o modo, o que Jones estaria a relatar mudaria para sempre as perspectivas do Ocidente ao regime socialista. A fome, tal qual no regime capitalista, era programada e escandalosamente posta em silêncio na versão oficial do governo. Evidentemente ele não conseguiu sua tão sonhada entrevista com Stálin, no entanto, saiu da Rússia com um material mais devastador. Claro que o jornalista foi pego e só não foi morto prontamente devido ter sido chantageado para que mentisse sobre a realidade russa (em troca, havia 6 engenheiros britânicos feitos reféns que seriam libertos caso Jones compactuasse com a versão oficial do governo soviético). No entanto, poucos anos depois Jone fora morto na Mongólia, um dia antes de completar 30 anos.

O relato de Jones foi desmoralizado publicamente, e ainda, o governo russo libertou os britânicos, tudo em troca de se criar uma boa imagem externa. Além disso, as relações com os EUA provocam o telespectador no sentido de descaracterizar os fundamentos da ideologia e do velho maniqueísmo que surgiria na Guerra Fria, em prol de um comércio internacional que está além das bandeiras partidárias: o lucro, não importa se provém de meios de produção coletivos ou não, é sempre privatizado. O The New York Times desmente Jones publicamente, pondo as relações econômicas com a Rússia acima de qualquer tratado internacional de direitos humanos. Aliás, a cena em que Jones se encontra com Orwell em um restaurante londrino, comendo carne de porco (que remete à fazenda da literatura), cuja carne foi posta na mesa por "proletariados livres" (na cena em que chegam ao restaurante, a câmera faz questão de passear ao lado de fora do restaurante, captando os trabalhadores descarregando a comida que serviriam aos burgueses ou à classe média privilegiada), apenas mostra a semelhança entre os sistemas de exploração: há quem serve e há quem é servido. "Mudam-se as estações, mas nada mudou".

Ainda assim, Jones conseguiu publicar seus resultados em diversos outros veículos, entre os quais o The Guardian. Para nós, em uma época marcada por Fake News e uma mídia que pode sim envolver-se em interesses espúrios, levar a sério um jornalismo investigativo deste quilate se faz extremamente necessário. Não à toa, governos dos mais variados expectros políticos descredibilizam a mídia como um todo, e ainda adotam medidas de sigilo de suas ações. Mais uma vez, usam a justificativa de que seria tudo por uma causa maior: seja para conter o avanço socialista ou ainda para promovê-lo. Mas o fato é que tanto o capitalismo quanto o socialismo real fazem enriquecer uns poucos mediante o trabalho de muitos. Até quando?

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