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28 de março de 2020

FILME: A CASA

9/10

ENFIM, A ESPANHA 

Desde o sucesso da série "La casa de papel" e suas outras tantas e desnecessárias temporadas, uma enxurrada de produções espanholas de caráter duvidoso invadiu o streaming, em especial a Netflix. Temos aí exemplares como "Elite" e o mais recente "Toy boy", que contam com histórias cheias de reviravoltas "mirabolantes" e "engenhosas", exigindo muita concessão por parte do expectador, e claro, um elenco jovem, modelado, de rostos sempre plásticos e maquiados, com um ar ocidentalmente agradável para atingir um grande público.

No entanto, a Espanha, assim como outras países do mundo, não se representa apenas por enlatados. Sofrendo com um crescente desemprego e com um dos aluguéis mais caros da Europa (pode ser conferido na reportagem do "El país" aqui), particularmente a cidade de Barcelona guarda em si todas as contradições que um grande centro proporciona, com suas mazelas sociais e com a flexibilização das relações trabalhistas, temas estes que passam longe das produções citadas anteriormente, ainda que "La casa de papel" inicie uma discussão social, para logo dissipá-la na busca pela ação descerebrada.

É neste contexto que surge a importância de "A casa" (Hogar, 2020), dirigido e roteirizado pelos irmãos David e Alex Pastor. Centrando a história no publicitário desempregado Javier Muñoz (interpretado por Javier Gutiérrez), finalmente a Espanha das contradições dá as caras, em lentes extremamente competentes, especialmente em seu primeiro ato, construído com total sutileza.

O filme já inicia com "os comerciais de margarina", retratando o cotidiano de uma família idealizada pela classe média, peça publicitária que é objeto de trabalho do protagonista. Em seguida a essa projeção idealista, temos a vida real de Javier explodindo na tela, em sua busca por uma recolocação no mercado de trabalho e no declínio do padrão de vida de sua família.



Junto com a esposa e o filho de 14 anos, Javier é obrigado a deixar seu apartamento de luxo para morar em um lugar mais modesto, particularmente contrariado e abatido pela mudança brusca, evidenciado, por exemplo, nos closes sobre a pia da nova casa (muito mais inferior), ou em sua relutância em vender o carro. Tendo que despedir a empregada em uma cena sutilmente construída, Javier não aceita a nova posição da família, e passa a vigiar seu antigo apartamento de luxo até mesmo quando novos moradores já estão lá habitando.

A partir daí, o filme cresce na tensão, assentada no tema da inveja e na imprevisibilidade das ações do protagonista, tomado pelo sentimento de não aceitação de seu status, aproximando-se do seu antigo apartamento e dos atuais moradores, obcecadamente.

Vamos progressivamente acompanhando os passos de Javier, em sua sociopatia construída sem muita histeria, mas com um excelente jogo de câmera e de ambientação. Transforma-se num filme de suspense tendo a presença quase onipresente de um maníaco. 

É certo que alguns arcos poderiam ser melhor desenvolvidos, como o do jardineiro ou a relação de Javier com a família, mas isso não interfere no saldo final, quando assistimos as consequências das ações do vilão junto ao novo núcleo familiar. Há muitas passagens sutis que mostram a visão da produção em relação ao padrão de vida esboçado pelos novos moradores, representantes de uma genuína classe média que vive de aparência, desde a frágil relação conjugal, ou o fato de serem ricos devido ao paternalismo da família da esposa (o pai dela é o dono da empresa em que o marido trabalha), ou até mesmo ao tipo de esporte que a filha deles pratica, a ginástica rítmica.

Inevitavelmente, nossos estilos de vida, se não condicionados, são influenciados por padrões de consumo e de renda, assim como a meritocracia é a mais pura ilusão de nossa posição social facilitada. Javier não é apenas o antagonista imediato, mas também a válvula pela qual enxergamos as hipocrisias e idiossincrasias da sociedade baseada em imagens.

Entregando um final um tanto quanto corajoso, por não ser politicamente correto, o close na torneira de luxo reforça o contraste, o apego material, a animosidade de nossas ações perante a busca por uma vida facilitada. Destaque também para cena em que Javier "compra" o silêncio da antiga esposa, mostrando que o apego aos bens e a uma vida confortável nos conduz a ações e "não ações" sempre devidamente questionáveis ou situadas num contexto que reforça nossa sobrevivência ostensiva.

Se toda essa reflexão não agradar ou não for uma boa premissa para curtir um filme, é possível divertir-se unicamente pelo suspense e pela trama desenvolvida, que pode até exigir certa concessão aqui ou ali, sem deixar de agradar positivamente ao final. Aí sim temos um retrato muito bem vindo da Espanha, com uma casa que, desta vez, não é de papel.







24 de março de 2020

Cinemas, aspirinas e urubus

O ROAD MOVIE NORDESTINO

Com a direção de Marcelo Gomes (que também assina filmes como "Viajo porque preciso, volto porque te amo" e "Estou me guardando para quando o carnaval chegar"), roteirizado pelo super talentoso Karim Ainouz (que também assina "Abril despedaçado", "Madame Satã", "Praia do futuro" e o mais recente "A vida invisível"), vislumbramos em tela um grande road movie nacional, que são filmes cujo enredo perpassa por uma viagem ou jornada marcante, capaz de transformar os protagonistas.



Outros grandes exemplos de road movies no cinema são: "Comer, rezar e amar" (Com a Julia Roberts), ou "Thelma & Louise!" (do diretor Ridley Scott), ou mesmo "Central do Brasil". Ok, já deu pra perceber o que é um road movie.


Conta a história do estrangeiro Johann (Peter Ketnath) e de Ranulpho (João Miguel), companheiro que aparece ao longo do percurso, no início do filme. Fugindo da segunda guerra mundial, Johann, um alemão, encontra no Brasil um alívio escapista ao conflito de dimensões castróficas.

Bem irônico perceber que o alemão está melhor no sofrido agreste nordestino do que na Europa, não é? E sem apelar para melodramas, mesmo na dificuldade, ficamos com a sensação de que sim, o agreste brasileiro é um lugar que precisa ser mais bem explorado, cheio de pessoas simples, mas interessantes, cheio de humanidade.

Claro que a trama poderia ser melhor desenvolvida, mas o que vale aqui mais do que subterfúgios mirabolantes, é a simbiose com o lugar, que inclusive está além da amizade de ambos os protagonistas.

O título do filme deve-se ao fato de Johann ganhar a vida a vender aspirinas, e o faz projetando filmes ao longo das cidades que visita, como  publicidade ao seu produto. Mesmo porque, em 1942 as pessoas realmente poderiam ficar encantadas com o que vêem a partir do velho projetor de Johann.

Escrevo essa crítica num ano em que muito se fala de "Bacurau" e sua linguagem que põe em evidência o confronto. Ambos se passam no Nordeste.

Sem desmerecer o trabalho de Kleber Mendonça Filho, mas o fato é que "Cinema, aspirinas e urubus" mais congrega do que separa. A busca pela felicidade genuína une tanto o alemão perdido no Brasil quanto a sertaneja que ele encontra ao acaso pela cidade, em um comentário que ela própria faz no filme. E talvez estejamos precisando de mais aproximação nesses tempos.



1 de março de 2020

POR LUGARES INCRÍVEIS

7/10

GATILHO? Não. DEPENDÊNCIA EMOCIONAL? Sim.


Não sou um grande entusiasta dos filmes e das séries adolescentes da Netflix. A começar que são, no geral, demasiadamente estridentes, irritantes, pouco inovadores e apelativos de um jeito bobo. Não é uma linguagem coloquial ou o fato de falar de sexo e de diversidade (necessário) que vai dar qualidade à determinada obra. Deste modo, fui conferir "Por lugares incríveis" sem grandes expectativas, ainda mais já tendo lido o livro, e, diga-se, não é uma literatura grandiosa, apesar de ser um best-seller.

Para minha surpresa, a obra cinematográfica de Brett Haley é sim bem digna. A começar pela trilha e ambientação. Esqueça aquelas piadas fáceis de um "American Pie" ou de qualquer outra comédia norte-americana. O filme se agarra a um cinema de gênero, com alta carga emocional e dramática, muitas vez silencioso e arrastado. Puro sentimento.

Inclusive, às vezes poderia ser mais ágil, como por exemplo a ótima montagem de "Meninas malvadas", mas isso não tira o mérito da obra, realmente tocante, embora possa ter comprometido um pouco o desenvolvimento dos personagens.

O roteiro contou também com a contribuição de Jennifer Niven, a escritora do romance original. Conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), ambos jovens secundaristas com claros problemas psicológicos. Ela, por ter perdido a irmã num acidente de carro. Ele, pelo comportamento instável e agressivo, cuja origem remonta à sua infância conturbada devido às agressões do pai.

É de se estranhar que algumas passagens difiram do livro, e embora eu tenha gostado de quase todas as adaptações, a construção de Finch ficou meio prejudicada. No livro, por exemplo, é retratada bem mais a relação dele com o pai, e isso é essencial para compreendê-lo a fundo. Aliás o estranhamento ocorreu já nas cenas iniciais, em que Violet tenta se matar e Finch a salva: no filme é um momento particular dos dois, mas no livro é uma cena em que toda a escola vê e acaba achando que Violet salva Finch. Pode parecer um mero detalhe, mas essa diferença pública do comportamento dos jovens é essencial para entender o tipo de desenvolvimento e característica que marca cada um, da garota popular ao garoto "aberração", mas no filme este contraste acaba sendo muito mais diluído.

No entanto, é sobre a personalidade de ambos que o filme se constrói e acerta no alvo. Finch, por exemplo, gosta de correr, é extrovertido muitas vezes, não passa despercebido na escola, ainda que o chamem de "aberração", dado um episódio de violência que protagonizara com outro jovem na escola (aliás, o filme poderia ter reproduzido em flashback a cena, mas se limita a apenas citar). Violet também vai a festas, inclusive é mais sociável que ele, ainda que esteja em estado depressivo, sofrendo pela falta da irmã. Em suas redes sociais, ela continua a sorrir.

Isso serve para estarmos em alerta com as pessoas em volta. Sorrisos nas fotos, estar em festas, ter amigos, muita coisa pode mascarar nosso verdadeiro estado interior. Ter alguém que nos enxergue para além da superfície, é muito raro hoje em dia, e é por isso que a química do casal funciona perfeitamente bem: enxergam a alma um do outro. Violet em nenhum momento deixa de tentar compreender Finch por dentro, inclusive há uma cena em que implora para o garoto se abrir mais. Finch então, além de enxergar a humanidade de Violet, passa a primeira metade do filme tentando animá-la, conseguindo com êxito tal proeza. Ambos se aproximam mais devido um trabalho da escola em que devem visitar lugares turísticos da cidade (Indiana), daí o título da história, "Por lugares incríveis".

Detalhe aqui que o roteiro é bem sutil ao sugerir que Finch sabe muito bem o que está fazendo perante Violet, insistindo para que formem a dupla para realizar as visitas, forçando a amizade e tentando a todo instante reacender a luz na vida da garota, afinal, ele próprio também precisa de ajuda. Embora ele muitas vezes suba o tom e se mostre inclusive abusivo (como na cena em que a force a entrar no carro), não se pode simplesmente julgar o ato com um certo "machismo" da parte dele, ainda que, sim, ele tenha atitudes machistas. Deve-se no entanto, perceber que sua autoridade perante ela fora construída num momento de fragilidade de Violet e num momento em que o próprio Finch via a si mesmo nesta fragilidade. Seu tom a mais com ela, era também um reflexo a si próprio. Ambos eram frágeis emocionalmente, e isso não é nada bom, daí está a limitação do roteiro em reforçar isso, pois do jeito como ficou apresentado, parecia que inclusive tal dependência ganhava força romântica.

"Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. [...] Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você" (Woolf, Virgínia).

Essa frase e outras de Virgínia Woolf são usados pelos protagonistas, na tentativa de deixar o filme mais cult. O bom é que não ficou tão forçado, mas a citação em especial revela a romantização da DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, o que pode levar aos mais desavisados a olhar tudo de forma positiva, romantizada. 

Em determinado momento, Finch procura um grupo de apoio, mas é muito pouco para um filme que ao final mostra um alerta sobre saúde mental. Os pais de Violet, por exemplo, são tão passíveis diante do problema da garota, não há um profissional de saúde a acompanhando, e ainda mostra a complacência da postura da mãe ao simplesmente incentivar a jovem a sair, como se tal escapismo fosse o suficiente.

No entanto, este defeito do filme é mais proveniente da escrita de Jennifer Niven mesmo. Não há como revolucionar a partir de um material já meio frágil. Por isso destaco aqui a competência de Elle Fanning, que consegue entender a mensagem da obra e com um simples olhar, por exemplo, mostrar a força da personagem, por si. 

O final, ainda que arranque lágrimas, trás uma importante mensagem de esperança, do seguir em frente, de passar por cima das dificuldades e traumas, e seguir o seu caminho, ainda que cheio de dificuldades. Os "lugares incríveis", se não são tão incríveis assim, é até, em parte, um acerto, já que torna mais poderosa a ideia de que lugares banais podem tornar-se realmente incríveis se envoltos de esperança. Os protagonistas visitaram os lugares para uma pesquisa da escola, e assim o filme se encerra, com a leitura arrebatadora do relatório produzido da experiência em visitar tais lugares. Uma cena extremamente boa, com uma trilha feita puramente para emocionar.

Não achei que o filme incentiva um gatilho ao suicídio. Até porque, uma mente frágil pode se servir de qualquer pretexto, afinal. Embora entenda as críticas sobre o gatilho, e de certa forma concorde que faça sentido sob certo ponto de vista. Afinal, DEPENDÊNCIA EMOCIONAL pode ser visto sim como um gatilho, e isso infelizmente mostra um desiquilíbrio do material. Faz sentido, quando vemos que o filme poderia explorar melhor, de forma mais educativa, os sérios problemas dos jovens.

No entanto, a discussão está posta, e surpreendentemente o filme não apela ao humor bobo para mostrar a construção da relação da dupla, muito menos a voltas mirabolantes, e nem em cenas apelativas com as vistas em "13 reasons why". É um drama que se sustenta nas imagens, na trilha (acertadamente silenciosa no início) e na interpretação dos jovens, e isso, para uma produção da Netflix, já é um grande passo a frente.














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