ENFIM, A ESPANHA
Desde o sucesso da série "La casa de papel" e suas outras tantas e desnecessárias temporadas, uma enxurrada de produções espanholas de caráter duvidoso invadiu o streaming, em especial a Netflix. Temos aí exemplares como "Elite" e o mais recente "Toy boy", que contam com histórias cheias de reviravoltas "mirabolantes" e "engenhosas", exigindo muita concessão por parte do expectador, e claro, um elenco jovem, modelado, de rostos sempre plásticos e maquiados, com um ar ocidentalmente agradável para atingir um grande público.
No entanto, a Espanha, assim como outras países do mundo, não se representa apenas por enlatados. Sofrendo com um crescente desemprego e com um dos aluguéis mais caros da Europa (pode ser conferido na reportagem do "El país" aqui), particularmente a cidade de Barcelona guarda em si todas as contradições que um grande centro proporciona, com suas mazelas sociais e com a flexibilização das relações trabalhistas, temas estes que passam longe das produções citadas anteriormente, ainda que "La casa de papel" inicie uma discussão social, para logo dissipá-la na busca pela ação descerebrada.
É neste contexto que surge a importância de "A casa" (Hogar, 2020), dirigido e roteirizado pelos irmãos David e Alex Pastor. Centrando a história no publicitário desempregado Javier Muñoz (interpretado por Javier Gutiérrez), finalmente a Espanha das contradições dá as caras, em lentes extremamente competentes, especialmente em seu primeiro ato, construído com total sutileza.
O filme já inicia com "os comerciais de margarina", retratando o cotidiano de uma família idealizada pela classe média, peça publicitária que é objeto de trabalho do protagonista. Em seguida a essa projeção idealista, temos a vida real de Javier explodindo na tela, em sua busca por uma recolocação no mercado de trabalho e no declínio do padrão de vida de sua família.
Junto com a esposa e o filho de 14 anos, Javier é obrigado a deixar seu apartamento de luxo para morar em um lugar mais modesto, particularmente contrariado e abatido pela mudança brusca, evidenciado, por exemplo, nos closes sobre a pia da nova casa (muito mais inferior), ou em sua relutância em vender o carro. Tendo que despedir a empregada em uma cena sutilmente construída, Javier não aceita a nova posição da família, e passa a vigiar seu antigo apartamento de luxo até mesmo quando novos moradores já estão lá habitando.
A partir daí, o filme cresce na tensão, assentada no tema da inveja e na imprevisibilidade das ações do protagonista, tomado pelo sentimento de não aceitação de seu status, aproximando-se do seu antigo apartamento e dos atuais moradores, obcecadamente.
Vamos progressivamente acompanhando os passos de Javier, em sua sociopatia construída sem muita histeria, mas com um excelente jogo de câmera e de ambientação. Transforma-se num filme de suspense tendo a presença quase onipresente de um maníaco.
É certo que alguns arcos poderiam ser melhor desenvolvidos, como o do jardineiro ou a relação de Javier com a família, mas isso não interfere no saldo final, quando assistimos as consequências das ações do vilão junto ao novo núcleo familiar. Há muitas passagens sutis que mostram a visão da produção em relação ao padrão de vida esboçado pelos novos moradores, representantes de uma genuína classe média que vive de aparência, desde a frágil relação conjugal, ou o fato de serem ricos devido ao paternalismo da família da esposa (o pai dela é o dono da empresa em que o marido trabalha), ou até mesmo ao tipo de esporte que a filha deles pratica, a ginástica rítmica.
Inevitavelmente, nossos estilos de vida, se não condicionados, são influenciados por padrões de consumo e de renda, assim como a meritocracia é a mais pura ilusão de nossa posição social facilitada. Javier não é apenas o antagonista imediato, mas também a válvula pela qual enxergamos as hipocrisias e idiossincrasias da sociedade baseada em imagens.
Entregando um final um tanto quanto corajoso, por não ser politicamente correto, o close na torneira de luxo reforça o contraste, o apego material, a animosidade de nossas ações perante a busca por uma vida facilitada. Destaque também para cena em que Javier "compra" o silêncio da antiga esposa, mostrando que o apego aos bens e a uma vida confortável nos conduz a ações e "não ações" sempre devidamente questionáveis ou situadas num contexto que reforça nossa sobrevivência ostensiva.
Se toda essa reflexão não agradar ou não for uma boa premissa para curtir um filme, é possível divertir-se unicamente pelo suspense e pela trama desenvolvida, que pode até exigir certa concessão aqui ou ali, sem deixar de agradar positivamente ao final. Aí sim temos um retrato muito bem vindo da Espanha, com uma casa que, desta vez, não é de papel.

