O que esperar quando se espera muito do Estado?
Estou
escrevendo este texto com todo o cuidado, porque apresentar uma crítica séria
ao MHB (Movimento Homossexual Brasileiro) não é fácil. Primeiro, porque muito
dos avanços que tivemos no campo da sexualidade se deve a este movimento,
formado por militantes comprometidos, ainda que às vezes ingênuos, mas muitas
vezes incansáveis, dotados de ideais e sonhos juvenis. Segundo, porque seria
muito fácil a ala conservadora da sociedade civil se apropriar de qualquer
desalinho atinente ao movimento LGBT e distorcer minha visão. É preciso
cautela, sem deixar de ser objetivo e igualmente corajoso pra tecer críticas,
ciente provavelmente de que não agradarei nem um lado, nem outro.
A
verdade é que o movimento LGBT se encontra, em toda parte, emparelhado pelas
estruturas partidárias da ala esquerdista e pelo formato de ONGs que buscam um
lugar ao sol na estrutura burocrática do Estado. Evidentemente, não seria
problema alguma se esta opção e estilo de enfrentamento político não fosse
altamente engessada. Digo isso não penas por acompanhar de perto o movimento
homossexual tanto a nível nacional como a nível regional, mas também baseado em
muitas leituras (inclusive acadêmicas) e pesquisas na área.
Lógico
que esquerda e direita não é uma linha fácil de traçar, ainda mais no Brasil,
mas creio que minha argumentação aqui apresentada irá clarear o que entendo por
essa divisão, tendo em mente a noção de diretos mais individuais em detrimento
dos direitos mais coletivistas (num continuum) e das formas de apropriação do Estado.
Pude perceber mais de perto, por exemplo, como se
deu a implantação, aqui no meu Estado, de um dos programas lançado pelo governo
para combater a homofobia. O Programa “Pará Sem Homofobia” (em vários outros
Estados foram criados programas semelhantes, aproveitando a deixa do governo
Lula), criado no âmbito da “Secretaria de Justiça e Direitos Humanos” do Estado
do Pará, é uma extensão do Programa Nacional “Brasil sem homofobia”. Vale
ressaltar que esta articulação faz notar uma evidente forma de redes, como
diria Massardier (2006): “Inicialmente, a descoberta das redes vem de um
questionamento sobre as teorias disponíveis quanto aos processos de
intermediação dos grupos de interesse desenvolvidos em torno do
neocorporativismo e pluralismo” (p.168).
Essas redes são formatadas em torno da temática da
promoção e valorização da diversidade (uma espécie de issue network). Mas como ressalta Massardier (2006), apesar de a
democracia pluralista abrir espaços para os novos atores sociais se
organizarem, a existência de grupos de interesses agindo em rede remete também
ao NEOCORPORATIVISMO, isto é, estes grupos tendem a alinhar-se a partir da
estratégia de sua profissionalização, institucionalização e objetivos
pragmáticos almejados. Portanto, o programa Pará sem homofobia é parte de uma
política pública que só pode ser compreendida em uma rede direcionada, a qual
se vale dos ditames de uma democracia pluralista, da presença de grupos de
interesse e cuja ação pode ser compreendida à luz das teorias
neocorporativistas, com atores seguindo uma lógica de “militância planejada”.
O
meu amigo Samuel Júnior (2011), por muitos anos militante e ativista dos
direitos homossexuais, estudou a questão na sua dissertação de Mestrado,
concluindo pela limitação dos recursos (sejam eles financeiros, humanos ou
logísticos), prejudicando a implantação dos projetos do Pará sem Homofobia.
Como
o formato de ONG’s passou a prevalecer na década de 90, o movimento homossexual
passou a ser cada vez mais dependente do Estado e do financiamento público,
inicialmente oriundo de verbas para combater a AIDS/HIV. Essa crítica foi formulada
por dois estudiosos mais gabaritados no assunto: Júlio Simões e Regina Facchini,
na obra já clássica “Na trilha do arco-íris”, onde resumem a trajetória do movimento
homossexual brasileiro (Simões & Facchini, 2009). Este grau de dependência
fica claro quando se enumeram, nas análises correntes, as principais dificuldades
e avanços na implementação de políticas públicas de combate à LGBTfobia e de
promoção da cidadania da população LGBT.
Ora,
o que esperar quando se espera muito do Estado?
Sem
entrar no mérito da questão, não é à toa que no Pará (e suspeito, em muitas
outras partes do Brasil) houve uma cisão entre ONGs, algumas relativamente mais
novas foram criadas com uma ideia de slogan “apartidária”, ou que tenham esse
distanciamento (ainda que retórico) partidário como diferencial, a exemplo dos
grupos mais atuantes aqui no Pará: o COR (Cidadania, Orgulho e Respeito), o GHP
(Grupo Homossexual do Pará) e o Apolo – Grupo Pela Livre Orientação Sexual,
diferenciam-se, entre outras coisas, também pela diferenciação partidária. Por exemplo,
um dos eixos de ações do Programa “Pará sem homofobia”, diz respeito a “Apoiar
e fortalecer, inclusive com apoio institucional, as organizações GLBTTs do Estado,
COR, GHP, GHS, MHB, para que possam efetivamente atuar e organizar as demandas
desse segmento estadual, inclusive auxiliando o fortalecimento e constituição
de outras organizações em outras regiões do Estado”. A ausência do grupo APOLO
nesta singela lista não é mera coincidência.
Mas
quero, aqui, ressaltar não a agressividade ou rivalidade entre grupos, pois de
fato ainda percebo que a articulação e os canais de comunicação, pelo menos nas
buscas de coordenação em eventos como a “parada da diversidade”, ainda são a
tônica do movimento. Quero deixar claro: mais vale o que nos une, do que nos
diferencia! Ainda assim, a crítica que aqui faço diz respeito à apropriação dos
espaços públicos, não por si mesmo, uma vez que esta apropriação pode ser
vantajosa, mas as formas como este vínculo com o Estado estão se dando.
O
governo estadual do PT (2007-2010), inegavelmente abriu as portas para o
movimento, mas será mesmo que abriu o suficiente para a passagem de toda a
marcha LGBT? Veja como descreve a questão o já citado Samuel, em sua
dissertação:
A construção desse programa foi
fruto da articulação entre o Governo do Estado e o Movimento LGBT. Essa
articulação se deu pela ocupação de cargos públicos, dentro da estrutura do
Governo, por parte de algumas lideranças que atuavam também dentro de partidos
políticos, em particular do Partido dos Trabalhadores (PT) e também de outros
partidos coligados, como o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Foi o caso em
particular da CLOS, em que o coordenador e os assessores foram indicados pela
atuação destacada no Movimento LGBT (caso do coordenador) e nos partidos
políticos dos quais faziam parte (caso dos assessores). (Souza Jr, 2011, p.110)
O CLOS é a Coordenação de Livre orientação Sexual
criada na gestão petista, e evidentemente os militantes do PT ocupariam os
cargos burocráticos. Repito: não é este o problema, em si. O problema é quando
toda a atuação do movimento aí deposita suas reais chances de atuação. É claro
que as articulações com outras esferas são importantes, como no caso da OAB ou
na pressão ao Legislativo. Mas isso não nega o que quero chamar a atenção: a sociedade civil e o movimento social
organizado parecem diluir seu campo de atuação, intermediados pelas estruturas
do Estado. Trata-se, portanto, de um desafio para o movimento LGBT: como
tornar-se cada vez mais autônomo e independente do Governo (por exemplo, com a
troca do Executivo estadual para outro partido, o PSDB, é possível nos
questionarmos a respeito dos limites de atuação e se houve alguma alteração nos
respectivos espaços de ação).
Em
suma, aqui vai a diferença entre uma agenda esquerdista (atrelada cada vez mais
ao governo) e uma agenda mais libertária, em que se questiona tal
entrelaçamento.
MAS PORQUE ESSA CRÍTICA É IMPORTANTE??
Que todo o movimento está relativamente emparelhado,
não há dúvidas (nem a própria ABGLT escapa). O problema todo está na lógica
deste “esquerdismo” que vê o Estado, primeiramente, como um espaço a ser
apropriado para servir-lhe de amparo profissional. Há algumas verdades que o
movimento precisa saber, e aqui vou enumerá-las:
1) O movimento Homossexual, em sua
origem, não é esquerdista!
O início do movimento se deu em Nova York, e remete
às censuras no bar gay Stonewall Inn,
em 1969. Os gays e travestis, frequentadores do ambiente, se rebelaram contra a
batida da polícia realizada sorrateiramente, e marcaram o lugar (um bar com
pista de dança) como verdadeiro espaço para encontro. Ou seja, se estreitava aí
não apenas a relação entre a identidade gay e a pista de dança, numa relação
política, mas também uma efervescência reivindicatória para o encontro e, o
mais importante,
a ideia de que a polícia e os órgãos repressores do Estado não deveriam se
intrometer nesses espaços. O episódio ficou conhecido como
“A Revolução de Stonewall”, numa demarcação de liberdade e enfrentamento.
Reparem: o movimento surge reivindicando (e
continua) direitos civis, direitos estes que protegem a liberdade individual e
a não-intervenção estatal. Mas, então, o que aconteceu?
2) A AIDS enquanto elemento definidor
do movimento
Na década de 80 ocorre o surto da AIDS, e então o
impacto desta onda em todo o movimento é alarmente. Há todo um lobby gay e um esforço por trás de
muitos ativistas para decidir sobre a estratégia de enfrentamento. E aí
começamos a encarar a sexualidade como questão de saúde pública, merecedora dos
amparos do governo. Tudo bem, acho justo. Mas o peso desta virada é muito maior
do que pensamos.
Um dos aparatos ideológicos que justificam a
política de enfrentamento é, inicialmente, a promoção dos Direitos Humanos. Afinal
de contas, os ativistas gays clamavam por políticas de saúde, por investimentos
em prevenção, tratamento etc, e se viam como uma minoria em desvantagem social.
Evidentemente tudo isso é importante, mas tão importante quanto é uma verdade
que pode doer: o avanço da AIDS, em grande parte, se deve ao estilo de vida
promíscuo de muitos gays. Não à toa que, segundo dados do Ministério da Saúde
divulgados em 2012, METADE dos novos casos de AIDS é diagnosticada em gays
masculinos. O que isso nos aponta?
Ora, o movimento é o primeiro a reclamar sobre
políticas contra HIV/AIDS, políticas de prevenção, financiamento, etc. Ok, acho
justo. Mas sinceramente, nunca vi o movimento discutir o quão dependente se
encontra da transferência de verbas governamentais para suas políticas de enfrentamento.
A articulação e fortalecimento da sociedade civil se dão em função da
probabilidade de alcance do governo, e não o contrário.
Além disso, há certo sectarismo ao levantar a
questão dos estilos de vida gay, como ao fato de não se prestar atenção ao que
a parcela católica fala a respeito da fidelidade, da monogamia etc. Ou mesmo o
que as críticas de um Bolsonaro ou Malafaia, líderes religiosos oposicionistas,
podem nos trazer a respeito da “superproteção” estatal, ainda que estes
crápulas estejam completamente tomados por discursos fundamentalistas,
é preciso levar em conta, sim, a institucionalização do movimento e a
normatização de suas identidades, mesmo que sejam para proteção contra crimes
homóficos. Tudo bem, se não quiser recorrer a essa ala direitista para travar
esse diálogo, que recorram, por exemplo, a Foucault, filósofo gay que já trava
tais questionamentos.
Não quero aqui exaltar as formas tradicionais de
manter uma relação sexual, pois acredito mesmo que uma visão libertária está
além disso. Contudo, é algo a se pensar, e que exponho a título de provocação.
Com isso, vamos ao próximo ponto.
3) O casamento civil igualitário não é
uma bandeira esquerdista.
Desde a proposta do PL 1.151/95, de autoria
da então Deputada Marta Suplicy, tratando do chamado, à época, de “união civil
entre pessoas do mesmo sexo”, o que fica patente é que a bandeira atual para o
casamento civil igualitário, é baseada no direito à liberdade, propriedade,
igualdade, tudo isso para resguardar o direito à herança e à comunhão de bens,
assentados em uma relação monogâmica, tradicional, aos moldes das relações
heterossexuais.
Aliás, uma parcela do próprio movimento critica o
termo “homoafetividade”, justamente por fazer alusão a um tipo de relacionamento
normativo. No questionamento do grande jurista Roger Rios: “o reconhecimento civil dessas uniões não seria uma oportunidade de
acrescentar novos ingredientes ao direito de família, ao invés de uma mera
repetição dos modos tradicionais de pensar e de viver casamento e união
estável?” (RIOS, 2011).
Rios está
preocupado com uma certa “naturalização do modelo de família heterossexual”,
expressa inclusive pelo termo “homoafetividade”, o qual “propõe a aceitação da
homossexualidade sem qualquer questionamento mais intenso dos padrões sexuais
hegemônicos” (p.109). Isto é, há uma assimilação de práticas afetivas
semelhantes aos padrões heterossexistas que acabam por diluir o vigor e o
discurso das relações sexuais heterodoxas, ainda que sejam um avanço,
considerando nosso grau de homofobia, machismo e heterossexismo, as recentes
decisões do STF equiparando as relações entre casais do mesmo sexo à união
estável, e ainda ao STJ por julgar procedente sua conversão em casamento civil.
O que se destaca é que esta é uma reivindicação inserida no campo do direito
civil, isto é, a nível das liberdades individuais, ainda que travada na
perspectiva de defesa coletiva.
Além disso, há toda
a crítica das formas de “higienizar” tais relações. Neste sentido, o autor
utiliza o termo “assimilacionismo familista”, como se o grupo mais fraco na
relação assimilasse os padrões do grupo mais forte como estratégia para o
reconhecimento, isto é, “a homossexualidade é aceita desde que nada acrescente
ou questione aos padrões heterossexuais hegemônicos, desde que anule qualquer
pretensão de originalidade, transformação ou subversão do padrão
heteronormativo” (p.108). Seria, portanto, salutar se questionar porque o
reconhecimento de direitos avança mais na questão do direito de família, quando
se sabe que há uma série de demandas que, inclusive, expõe mais abertamente a
sexualidade, como os direitos ao reconhecimento da criminalização da homofobia
(este último afetando e punindo mais diretamente os discursos hegemônicos
homofóbicos).
Esta crítica se
compartilha a uma série de pesquisadores e militantes, o próprio Foucualt já chamava
a atenção para o perigo das normatizações que ele enxergava a partir das
demandas do movimento gay. Mas não é
só este. Reproduzo aqui a ementa do Projeto de Lei do Senado, nº 658/2011, da
atual senadora Marta Suplicy, onde “Reconhece os direitos à identidade de gênero e à
troca de nome e sexo nos documentos de identidade de transexuais”. Veja que a
explicação da Ementa recorre aos argumentos mais centrais da liberdade
individual: “toda pessoa tem direito ao livre desenvolvimento de sua
personalidade, conforme sua própria identidade de gênero, com independência de
qual seja seu sexo biológico, anatômico, morfológico, hormonal, de atribuição
ou outro; Permite que toda pessoa requeira a adequação dos registros de seu
nome ou sexo quando não coincidam com sua identidade de gênero, (...)”, e o
texto prossegue expondo os requisitos para esta adequação.
Mas ainda há mais pontos que quero chamar a
atenção.
4) Países tradicionalmente de
esquerdas são grandes opressores.
Bom, aqui é preciso ter cautela com uma coisa: esta
história de direita e esquerda não deve ser banalizada. Não há definições ou
linhas muito precisas, de modo que devemos caminhar por elas com muito cuidado.
De qualquer modo, não é à toa que assistimos, agora em 2013, a uma onda de
manifestações contra a Rússia relativa à homofobia promovida nos seus jogos de
inverno. Inclusive, lá, paradas gays são proibidas, fruto da cultura de perseguição
imposta pela ex-União Soviética.
O Grupo Gay da Bahia, por exemplo, publicou nota
oficial sobre a perseguição a homossexuais ocorrida em Cuba (ver em http://www.ggb.org.br/cuba_livre.html),
exigindo retratação de Fidel Castro. Mas os exemplos também seguem para a China
e Coréia do Norte, ao passo que países como Estados Unidos ou Canadá,
notadamente de capitalismo avançado, as questões gays, em termos relativos
(pois não em todas as regiões) parecem ganhar destaque. O grande exemplo disso
talvez seja em Israel, país muito mais tolerante à diversidade.
O grande problema é que, de fato, no Brasil, o
fundamentalismo cristão operado tradicionalmente a partidos considerados de
direita, diluído em diversas bandeiras partidárias, dá pouca margem para a
conversa amparada nos direitos civis. Talvez o problema não esteja entre
direita e esquerda, mas entre fundamentalistas e não fundamentalistas, os quais
estão relativamente espalhados por diversas visões políticas.
Recomendo assistir ao filme "Antes do anoitecer", que retrata a perseguição do escritor Reynaldo Arenas durante o regime cubano.
5) O Pink Money
Por fim, serei brevíssimo em relação ao chamado Pink
Money, o tal mercado voltado a este público. É evidente que a crítica contra a
desigualdade social é altamente pertinente, mas não devemos nos esquecer que o
movimento de visibilidade em muito deve aos empresários e ao setor de consumo,
e a primeira sigla do movimento, que atualmente é uma sopa de letrinhas, foi
nada mais nada menos que o termo GLS, atrelado a uma estratégia de marketing
comercial.
É somente nos
anos 90 que aparece em cena o termo GLS: termo cunhado por André Fischer no
Festival Mix Brasil de 94, que significa Gays, Lésbicas e Simpatizantes: “A
agregação da idéia de ‘simpatizante’ teve um claro sentido de exortação ao
pluralismo e à mútua tolerância, ao estimular a reunião, no mesmo espaço
físico, de pessoas de diferentes (ou múltiplas) orientações sexuais (...). Sob
essa ótica, o GLS contribuiu para certa flexibilização e diluição das
fronteiras do gueto”. (FRANÇA, 2007).
André Fischer é empresário dono do grupo MixBrasil,
atualmente, o site “mixbrasil.com.br” é considerado o maior portal direcionado
ao público Gay, com atuação em diversas paradas e movimentando o mercado
editorial, a Internet, diversos pontos comerciais e etc. É evidente muitos autores chamam à atenção para a segregação
dos espaços comerciais GLS, muito mais do que para o processo de liberalização
e visibilidade. Isto por que, no Brasil, os espaços de sociabilidade não eram
bairros, mas em sua maioria bares e boates (além de saunas, clubes, cinemas
etc). Isto é, fortemente ligado a espaços comerciais.
Não se contesta sua influência, até mesmo no estilo
de vida de muitos gays. Esta tensão entre mercado e um movimento homossexual é
ponto de extrema relevância, muitas vezes com o diálogo atravancado por ideais
esquerdistas de seus militantes.
Concluindo...
Todo este longo texto, longe de querer esgotar o
assunto, é para termos cuidado com o forma do movimento homossexual no Brasil.
Não é á toa que muitos gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis não
se sentem nele representados. Ainda assim, um diálogo com grupos que questionam
a aproximação com o Estado é muito infrutífero, sem contar que, no Brasil,
direita e esquerda buscam, em conluio, mamar na teta do Estado. Com isso, resta
mesmo ao PSOl, PT, PCdoB, PSTU, que não abrigam fundamentalistas tais como em
partidos como PL, PRONA, PSC, o diálogo com o direito das minorias, por fora partidos como PSDB, PPS, tentam essa aproximação.
Para além da visão partidária, expus aqui algumas orientações como o casamento civil e a liberdade de identidade de gênero, que procuram garantir direitos ao indivíduo baseado em sua livre orientação, bem como a força econômica do mercado gay. Tudo isso parece distante das bandeiras clássicas da esquerda. Estamos vivendo, então, uma redefinição da esquerda?
Sinceramente, eu acredito que é preciso reavaliar,
de forma urgente, o movimento homossexual no Brasil. E, se possível, de forma
ampla. As liberdades individuais e as conquistas civis devem ser prioridade, e
é preciso um diálogo mais franco com a sociedade civil, com a Igreja, com setores
mais conservadores mesmo, pois esse jogo de demarcação de fronteiras está
criando um separatismo político muito forte. Isto é ruim para o movimento, pois
o discurso do enfrentamento, do ser vítima, do querer enfiar goela à baixo
certas Leis encontra críticas inclusive em setores muito progressistas do
próprio movimento. Querer ser diferente de cristão, por exemplo, é tudo o que
os fundamentalistas mais querem, estamos fazendo o jogo deles.
Em sentido político, portanto, a meu ver, é preciso
ser mais liberal, resgatar as liberdades individuais e dialogar de forma mais
racional com os fundamentalistas. Eles nos dão pistas, e nós abraçamos a briga.
Cabe a nós não travar a porta do diálogo, mas sermos mais espertos: chamá-los
para o debate, revisando e reinterpretando nossos argumentos, indo além de
nossa visão esquerdista limitada.
Referências utilizadas no texto:
FRANÇA, Isadora Lins. Sobre guetos e rótulos: tensões no mercado
GLS na cidade de São Paulo. Cadernos Pagu, Jun. 2007, nº 28, p.227-255.
MASSARDIER, Gilles (2006). Redes de Políticas Públicas. In:
SARAIVA, Enrique & FERRAREZI, E. (Orgs.). Políticas Públicas. Brasília,
ENAP, 2 v.
RIOS,
Roger Raupp; GOLIN, Célio & LEIVAS, Paulo Gilberto Logo. (2011). Homossexualidade e direitos sexuais:
reflexões a partir da decisão do STF. Porto Alegre: Sulina.
SIMÕES, Júlio Assis & FACCHINI,
Regina. N. (2009). Na trilha do
arco-íris: do movimento homossexual ao LGBT. São Paulo: Editora Fundação
Perseu Abramo, 2009.
SOUZA Jr, Samuel. Direitos Sexuais e Políticas Públicas: o
combate à discriminação para a concretização dos Direitos Humanos de lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT) no Estado do Pará.
(dissertação). ICJ, UFPA, 2011.




