Pesquisar este blog

27 de setembro de 2019

ANSIEDADE: A saga de um concurseiro.


Estou de volta. Não inteiramente de volta, por hora, mas após 4 anos sem escrever aqui, estou tentando retomar o "meu eu". Falarei aqui como estou tentando retornar à normalidade tendo que conviver com um quadro de ANSIEDADE bem profundo, que envolve também surtos depressivos.

Em 2015 (ano da última vez em que escrevi aqui) estava no auge do meu relacionamento mais marcante. Para o bem e para o mal. Época de muita entrega e de muita humilhação. No ano seguinte, em 2016, como parte da superação deste relacionamento, comecei a intensificar os estudos pra concurso, ainda que já seja concursado (sou Analista Administrativo num órgão federal).

Meus problemas psicológicos não iniciaram aí, já desde 2009 ou 2010 faço regularmente sessões de terapias, com idas e vindas, é verdade. Mas sinto que desde 2016, intensificou-se a ansiedade, a falta de autoestima, a cobrança. E foi o ano em que pela primeira vez tive pensamentos suicidas.

Antes de entrar em detalhes, preciso apenas saltar rapidamente para o tempo presente. Somente em 2019 consegui me formar em economia, sendo que já era sociólogo. Também passei pelos cursos de Matemática, Relações Internacionais, Sistemas de Informação e mais recentemente Engenharia da Computação. Como percebem, tenho total falta de foco, atirando pra tudo quanto é lado, sem muita organização, embora eu sinta que estudei bastante esses anos todos. E é verdade, ninguém pode negar que eu não seja estudioso. Mas a primeira lição que devemos tirar é saber diferenciar quantidade e qualidade de informação. Passear por todas essas formações, mostra apenas que tenho total falta de foco.

Tentei vários concursos, e obviamente acumulei várias reprovações. Concursos na área econômica, judiciária, fiscal, justiça trabalhista. Fazendo tudo errado. Simplesmente porque não faço ideia do que quero na vida, mesmo com duas graduações e um mestrado em Ciências Políticas. O fato de ter me classificado (fora das vagas) na maioria deles, me dá uma certa esperança de que não estou tão longe, mas é preciso ajustes. Porém, eu não estou tão longe de quê exatamente? Não sei.

E pra completar, professores de cursinhos não ajudam muito. Eles partem do ponto que você já tem um FOCO ou já está muito motivado. E aliás, eles estão certos, eles não podem e não devem escolher uma área por você. Esta é a segunda lição, definir sua área é essencial, pra sua saúde física, mental, e até mesmo financeira, e essa é uma atitude que você deverá realizar sozinho.

DA ANSIEDADE À DEPRESSÃO


Feita esta pequena introdução, é chocante constatar como cheguei ao fundo do poço. Lembro em 2016, fim de relacionamento, após ter assistido "13 reasons why", os pensamentos suicidas me dominando, e eu sem forças para sequer levantar da cama. Morar sozinho tem suas vantagens, mas nessas horas, é muito foda. É você com você mesmo. Ainda bem que sou fraco.

Era uma época de chuva de concursos de TRT. Em todos aprovei entre os 100, mas não conseguia ficar entre os 15. Sentia que precisava provar pra mim mesmo que conseguiria estudar, cumprir as metas e tudo o mais como manda o figurino, e sempre fazia meu planejamento, e sempre o refazia também. 

Minha vida era baseada no edital que saísse.

Conheci a "Turma de elite" no ano seguinte, na preparação de auditor SEFAZ-MA. O lema "estude, não pense" talvez tenha feito uma cicatriz muito maior na minha pele (e no meu cérebro).

Mas a questão é: eu nem sabia, e até hoje não sei, o porquê eu quero passar num concurso melhor. Desde quando classifiquei no BACEN em 2013, nutro esse desejo, e sempre costumo dizer que "BACEN é meu objetivo", mas eu sei muito bem que não consigo controlar a ansiedade e focar nele, estou a toda hora me empurrando a testes, e tentativas desesperadas de me encontrar em alguma área de formação (hoje faço Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e ainda não sei o que quero na vida).

Em 2018 mudei de cidade no meio da preparação à prova da ABIN, prova esta que nem me classifiquei e sobrou vagas, na área da economia. Senti também o peso dos "30 anos", e uma sensação de que, embora tenha um bom emprego, essa busca por um futuro melhor me consome. E como a Sandy, as costas doem. Tento me dedicar mais à academia e atividades físicas, mas logo vem o sentimento de culpa por não estar aproveitando bem o meu tempo, afinal, sou um fracasso em termos de organização, estudo há tanto tempo pra concursos e ainda não passei para um confortável (eu acho).

Falta-me disciplina, sobra muitos tiros avulsos. Foco é algo muito sério, daí me pego lendo livros de auto ajuda, "A única coisa". E em seguida, flerto com a área de TI que é onde estou atualmente, na mesma velocidade em que me inscrevo para um concurso na área de economia para auditor, e me saio até bem (4º lugar nas cotas), mas a peso de muita desordem e confusão mental.

Minha mente não sabe pra onde atirar, me sinto a toda hora aturdido, sem saber qual rumo seguir. Diagnosticado com ansiedade desde sempre, não demora muito vem surtos depressivos como os que senti à época da minha separação. Não me sinto um fracassado, pois estranhamente até consigo reconhecer o que já conquistei, mas sinto que estou muito próximo ao fim da linha. Constantemente meu inconsciente me compara a um robô. 

E chegamos em 2019, tenho falado pra mim mesmo que me encontrei na área de TI e que agora terei condições de pôr a minha vida no eixo. Mas no fundo eu sei que não tenho paixão alguma. O foco vem com uma certa dose de paixão, mas esse mundo está tão tóxico, do nosso cenário político (a escassez de concursos aqui acaba sendo o de menos) ao fato de que, internamente, me sinto como um viajante sem rumo. Falta tesão.

Com as redes sociais, somos bombardeados de notificações de aulas, de editais iminentes, de dicas, lives etc. Se um concurseiro não souber gerenciar isso, ele enlouquece. É muita informação atrelada a sonhos e desejos que mal sabemos ou definimos, e quando encontra uma mente inquieta como a minha, isso se transforma numa bola de neve. Sinto que estou rolando ladeira a baixo, numa metáfora que dá conta deste eterno movimento, cada edital meu coração pula, "será que faço ou não faço", mas afinal não respondi a pergunta mais fundamental: o que eu quero da vida?

Pra mim, a vida não tem sentido algum. E voltam os surtos depressivos, em 2019 já são 3 momentos em que ficava imobilizado na cama, absorvido pelos stories das pessoas, mais de 24h sem comer. Iniciei um namoro que pelo menos não me deixa ficar sozinho, e no último surto foi em casa e me levou arrastado para comer.

Sigo sem saber para onde ir. Sigo achando que meu namorado está perdendo tempo comigo. Sigo longe da família e amigos, desativei o Facebook, e não sei pra onde vou. Sigo atento às diversas oportunidades de editais, e nem sei direito se quero ou não fazer, mas acompanharei os cursinhos e suas frases motivacionais. Sigo com planejamentos feitos e não cumpridos.

Às vezes penso que seria muita sorte se uma bala perdida me atingisse. Poderia virar mártir e acabar com meu sofrimento em vida. Seria muito mais útil.

10 de junho de 2015

Dia das Namoradas


Ela estava encostada à porta da frente, solitária e pensativa. Um rabo de cavalo preso com a graciosidade de quem outrora ousava em tal visual para chamar a atenção. Era só um arremedo na tentativa de se sentir bem consigo mesma: estava no limite, prestes a desabar. Deu um bom dia arrastado ao porteiro do prédio, como se o sol ainda não tivesse lhe tocado a face, como se seu sorriso jovial fosse tudo menos a verdade que gostaria de carregar consigo. Na verdade, por mais meiga que fosse por fora, sua alma conseguia se esconder de forma impávida, mas com esforço. Era realmente necessário ter força.

Dia das namoradas. Ela mal conseguia lembrar-se do ano anterior. Foram seis anos uma ao lado da outra. Lembrou-se do primeiro dia das namoradas em que passaram juntas, em que foram jantar num restaurante italiano e tiveram que contar as moedas para poder, em paz, fazer o pedido do prato mais barato do menu. E estavam alegres, compartilhando os até então três meses de namoro, que logo se transformariam em um noivado, numa promessa que fizeram mais aos pais do que a si mesmas. Lembrou-se de como o garçom sorria para a sua namorada, como se a estivesse paquerando, e de como decidiram, naquele momento, sem dizer uma palavra, mas apenas com o olhar mútuo, dar o primeiro beijo em público. A cara do garçom misturava surpresa com um certo desejo velado, mas elas não se importavas. Tinham conseguido se interpretar em sinais.

E em três anos de convívio e relação mútua, onde uma simples respiração descompassada já lhe indicava um mínimo de sensibilidade, “hoje você não está bem”, relatavam com frequência, foram mais do que suficientes para decidirem compartilhar o mesmo espaço. Passaram a morar juntas.

Ah, conviver... Lembrou-se também das inúmeras taças de vinho. Era comum, às sextas-feiras, serem embaladas por iguarias suculentas e adiposas, como pizzas de bacon, embora saboreadas com um vinho portenho doce e suave. Desta vez, já empregadas,professora de literatura e nutricionista, planejavam oficializar a relação assim que a primeira terminasse o mestrado. Ideias e ideias. Nada disso vingou.

Agora ela estava ali, com o diploma na mão e com o coração vazio, esperando sua ex-noiva visitar (talvez pela última vez) o apartamento em que ambas compartilharam mais do que segredos: compartilharam seus melhores anos de juventude e vigor.

A tarde, ainda que ensolarada, se inebriava de um ar nublado e de rubros corações em bexigas esvoaçantes, deslizando pelos transeuntes na praça em frente ao prédio. Tanto riso fácil e tantas palavras de otimismo serão trocados neste dia 12 de junho, que a vontade que ela tem é de correr pelas ruas e fazer desacreditá-los. “Não dura para sempre”, berrava seu coração. E ela ali, consciente de que era objeto de desejo de alguns vizinhos, que poderia simplesmente soltar os cabelos ao vento, lisos e sedosos, e transfigurar-se na mulher que sempre fora. Mas preferia manter-se menina, recatada, vítima de um destino sobre o qual não se preparara.

Era muito duro receber a visita de sua ex justamente no dia das namoradas. Mas era a data em que ambas estariam disponíveis. Já fazia uma semana que não se viam, soubera por uma amiga em comum que a clínica de orientação nutricional da sua ex estaria prestes a inaugurar, em parceria com diversas academias que pipocavam na cidade. Não saberia ao certo como ela poderia ser tão competente em prescrever dicas dietéticas, em como ela era eficiente em cuidar do corpo, embora fosse um desastre para cuidar da alma.

Desgaste talvez não fosse a palavra certa, nem rotina. Era o que mais queriam, afinal! Aquele cheiro de café durante a correria da manhã, os discos da Adriana Calcanhoto em um fim de tarde chuvoso, a receita mais fajuta em dia de visitas, tudo isso num clima harmonioso, que simplesmente some. Desaparece. Tanto que, por mais que fizesse um esforço, não conseguia se lembrar do ano anterior, talvez aquele dia das namoradas fora esquecível pela viagem programada que não acontecera. Talvez.

É angustiante quando não se consegue apontar motivos, ainda que tal situação enseje um número desordenado de acusações. Se pelo menos houvesse uma terceira pessoa, o foco estaria ali, mais claro, mais nítido, e perfeitamente mais vulnerável. Ocorre que os fantasmas assustam bem mais. O que não se sabe, o que está por trás de um relacionamento que se esgota sem um motivo aparente, é muito mais assombroso. Torna as duas, vítimas e algozes de seus próprios destinos e sentimentos.

Perdeu a conta dos litros chorados, não pela partida ou pelo fim, mas pela certeza de que não haveria mais volta. Tudo isso é pesado demais, uma tonelada que se forma inicialmente depois de ter ficado claro que não existia mais nada a aquecer o coração, a não ser a saudade e a vontade de voltar a ser aquecida. Afinal, não é sobre não ter a pessoa em si, mas sobre o medo de ter somente a solidão. Nessas alturas, é como você se indignasse por dentro, pensando o quão pode ser tão pessimista, porque de fato é uma sensação de derrota que precisa ser superada. E vai sendo superada, aos poucos, em doses homeopáticas.

Neste meio tempo, construíram um patrimônio juntas. Precisavam agora, friamente, exercer o dom da contabilidade e separar os pertences. Os objetos pessoais já não se restavam no apartamento. E, de repente, deu um riso nervoso, quando veio em sua mente o quão fragilizáveis estavam quando nem uma e nem outra assumiram a posse do DVD “Como esquecer”, protagonizado por uma Ana Paula Arósio em seu épico do cotidiano para esquecer um amor. Não, o orgulho as intimava para empurrar para a outra a dor que era de ambas.

Já meio cansada e com os olhinhos fechando, ela finalmente a avista. Alguns minutos se passam até que elas possam cumprimentar-se friamente no hall, não com medo das retaliações a que possam ser objetos, mas com a falta de entusiasmo que finalmente sentem que as condenou.

Ao entrarem no elevador, só se ouve um “Como vai o Hulk?”, “Vai bem”. E só. Hulk, o cachorrinho que fora levado do apartamento, talvez fosse o mais próximo que tiveram de uma cria. Elas entraram no apartamento e se deram conta de que não havia nenhum tapete à porta de entrada. Talvez tenha ido na caixa junto com os discos de vinil. Nada mais fazia sentido, nem tinha o porquê de ser coerente.

Então, quando trancou a porta, finalmente ela ouviu um “Como você está?”.

Engraçada a percepção, a pergunta veio no momento em que estavam compelidas a sentir o subterfúgio daquele apartamento, palco de juras e de planejamentos mútuos. Possuía certo rigor mítico, como se à espera de um futuro não concretizado, mas delineado.

Trocaram trivialidades, “eu estou bem”, obviamente como se diz a uma velha tia quarentona que não se veem há anos. Não sabiam nem o que sentir, muito menos verbalizar essa emotividade. O jeito era canalizar uma para a outra, que eram, afinal, a fonte de toda essa profusão de sensibilidade. Ora, elas estavam ali! Fortes e imponentes, aparentemente. Deveriam transparecer a segurança que sabiam não ter. E foi o que fizeram, com um bloco de anotações a listar móveis e eletrodomésticos que seriam retirados por um amigo em comum, dono de uma empresa transportadora.

Obviamente que ela não aceitou ficar para jantar, embora falsamente tenha emendado com o típico “adoraria”. Reparou como esse “adoraria” sempre vem acompanhado do “mas”? “Eu adoraria ficar para jantar, mas ainda tenho que resolver umas pendências da clínica”. E você percebe que algo mudou quando esta resposta, que evita prolongar o contato, é a que mais satisfaz.

Então, chegam até o quarto. Não há controvérsias quanto a penteadeira, embora não tenham como avançar mais. Era melhor deixar a cama e o guarda-roupa fora de cogitação. Mas então acontece o inevitável. Sua ex desaba na cama, como se estivesse, desde o princípio, a retrair aquele choro que vem como um dilúvio, e com sonoros pedidos de desculpa!

O que estaria acontecendo com aquele choro? Que confusão é essa em que terão que rever o pacto firmado para o término? Por que dificultar as coisas em momentos que pareciam tão derradeiros?

“Desculpa por isso, estou me sentindo péssima! Queria que fosse diferente. Queria que hoje fosse diferente.”

Ela deu ênfase ao “hoje” como se precisasse realmente desse esforço. A anfitriã, então, quebra a regra estabelecida do contato e a abraça. Mas não com aqueles braços maliciosos que esperam sempre o roçar dos seios. Não, foi um abraço de afago. Foi um abraço a dizer que ela não precisava se preocupar, pois ficariam bem. Foi um abraço de alguém que dizia saber que estava perdendo e ganhando uma nova oportunidade ao mesmo tempo.

E foi incrível como a segurança de uma contagiou a outra. “De certa forma, hoje está sendo um dia diferente”, rebate.

Sim, o dia em que perceberam que era melhor seguir adiante. Ela sabia que o choro que fora contido até o presente momento significava um pedido de perdão por não podê-la mais fazer feliz, e não um pedido de retorno para que insistissem num fardo que não se pode mais suportar.

E mesmo que a consciência de ambas estivesse determinada pelo fim, elas então se cumprimentam de forma amistosa, e decidem que é o momento certo pelo qual estavam ansiosamente aguardando: “tenho um presente pra você”, e a outra, com espanto e com um leve sorriso, já controlando as lágrimas que insistiam em cair, reponde de forma arranhada: “não acredito... eu também!”.

E elas enfiem sorriem. Nervosamente, mas sorriem. A professora, então, retira da estante o seu livro preferido e entrega à ex amante, ao passo que esta pega da bolsa o que parece ser uma caixa com uma imagem da sua santa protetora. “Quero que fique com você”, diz.

E elas se presenteiam com objetos pessoais que lhe são valiosos, como a dizer que, na verdade, uma só pode levar o que há de melhor da outra. E se despedem com um beijo, não daqueles apaixonados, mas com a certeza de que a maturidade finalmente lhes alcançou, num dia das namoradas marcado pela passagem de um amor que não existe mais, simplesmente porque persiste para a imensidão do mundo que se abre para elas.





8 de junho de 2015

Sobre religião e estigma na Parada da Diversidade

Vamos imaginar que eventualmente você ouça uma música não muito boa, de um estilo que você curta bastante. ok, vamos exagerar, digamos que a música seja sofrível. ruim mesmo. certamente alguém conhece uma mpb, um rock, um jazz, que sejam intragáveis. agora vamos imaginar que esta singela experiência o faça maldizer todas as outras músicas de tal estilo, isto é, por um exemplar podre você odeia todo o restante. Muito radical, não é?


Imagine agora um filme terrível que você assistiu. Certamente você não desistirá do cinema em geral por ter visto uma comédia besteirol do Adam Sandler (mil perdões aos seus fãs, mas é este o tipo de filme que acho insuportável). Pois bem, certamente haverá outros filmes tão ruins quanto, ao passo que também existirão maravilhosas obras-primas da sétima arte lhe esperando para serem apreciadas. Por um filme ruim não se pode julgar todo o cinema, não é?


Então, tomei a liberdade desses exemplos esdrúxulos para dizer o que é um estigma. Estigma é quando você julga o todo por apenas um, sendo “esse um” geralmente o mais conveniente possível ao discurso de quem estigmatiza. Falo isso pois na parada Gay de São Paulo (07/06/2015) foi precisamente o que ocorreu com muitos discursos ao se depararem com exageros de umas poucas pessoas, envolvendo encenações religiosas do tipo: gays e lésbicas sendo crucificados pela homofobia nossa de cada dia (bela metáfora, eu diria), ou a encenação de um beijo gay envolvendo a figura de Jesus (de gosto duvidoso), ou crucifixos em órgãos genitais (de muito mau gosto), entre outras imagens, as quais foram o suficiente para os estigmatizadores de plantão julgarem todo o restante. Não adianta nem discutir, “gay é assim, querem afrontar”, pensam.


E como se enganam! Há LGBTIs dos mais diversos tipos, dos religiosos ao que curtem bate-cabelo, dos ateus aos que frequentam cultos evangélicos, dos mais afeminados aos que mais parecem protótipos truculentos de machos “alfas”, dos que frequentam parada gay àqueles que preferem ir a um jogo de futebol (e, diga-se, tipos não necessariamente excludentes entre si).


Agora imagine que um grupo de heterossexuais profane a imagem de Deus em pleno carnaval. Certamente ninguém falará: “esses héteros são uns sem-vergonha, ficam usando a imagem sagrada! Pecadores!” . Não, isso não ocorre. Não estamos acostumados a qualificar o heterossexual em função da sua sexualidade. Em outras palavras, não estigmatizamos o gênero decifrável. E que bom! Melhor seria se fosse assim para todos.


Vale lembrar que a parada hoje é chamada de “parada da diversidade”, compreendendo todas as possíveis formas de expressão, inclusive da heterossexualidade, ainda que essa normatividade não precise ser continuamente firmada, afinal. Isto só ocorre com os LGBTIs porque vivemos num paradoxo: entre o firmar uma identidade gay e, ao mesmo tempo, querer a igualdade que esta identidade representa. O “beijo gay” só estará livre de preconceitos quando se transformar em apenas “beijo”, momento em que todos poderão contemplar a beleza que é o beijo entre seres humanos que se amam. Mas enquanto o beijo gay não é naturalizado, fica difícil para certas pessoas considerá-lo apenas beijo, já que muitos ainda acham a cena mais abominável de uma novela, considerando uma com cenas de homicídios e lotada de infidelidades conjugais.


Além disso, na mesma parada da diversidade houve o manifesto de religiosos em favor da liberdade de orientação sexual. Logo, a recíproca é verdadeira: nem todo cristão é fundamentalista!


Por isso que, perante a livre encenação artística nas paradas da diversidade, não se pode atribuir nada ali a todo o restante. A diversidade abarca inclusive o terreno ideológico. Não se trata de julgar as pessoas LGBTIs, e sim de julgar aquela representação artística em particular, se agrada ou não, de acordo com seu conceito moral. No entanto, se o seu conceito moral for do tipo “LGBTIs são pecadores”, a sua mente é tão fechada que nem mesmo se os trios da parada entoassem a Sétima Sinfonia de Beethoven você os veria com bons olhos. E ainda bem que um Michelangelo, da Vinci, Cole Porter ou um Sócrates são lembrados mais pelos seus desempenhos em suas áreas do que pela sexualidade que praticavam (só espero que, depois dessa, não sobre pra Monalisa!).

14 de maio de 2015

Pelo direito de ser Feminina


Bicha pintosa. Colorida. Afeminada.

Essas certamente são as mais leves e aceitáveis nomeações àquelxs gays que dão o nome, minha filha! Gosto assim, quando chegam chegando.

Não suporto aquele discurso de “Se fosse pra namorar com mulher, eu seria hétero”. Tá boa? Cansou de bater siririca pros parceiros da Emmanuelle nas noites de cine Privê da Band, que nem se uma gata ao estilo Ísis Valverde ou Juliana Paiva te cantasse, iria funcionar o dito cujo.

Aliás, é evidente que todos nós temos direito a gostar de quem quisermos, a se sentir atraído pelo musculoso sarado e truculento ou amar aquele corpo mignon que dá pinta. Mas quando se brada um “não curto afeminados”, é quase um brado ao seu estilo pessoal de aversão a tudo que seja, digamos, fora do arquétipo masculino tradicional. Ou seja, a frase fala sobre sua personalidade mais íntima, e não sobre o seu gosto em relação a parceiros. É como se o “eu sou discreto” lhe fosse como um cartão de visita prioritário, e você, impermeável a tudo que possa sugerir a sexualidade fora desses padrões, se afugentasse no armário com medo de andar com esses “indigentes”.

Lembro-me de, certa vez, estar em uma parada Gay com um amigo militante. Ele queria “ficar” comigo, mas o via apenas como amigo. De repente, aparece do outro lado da rua o garoto com quem eu havia ficado na semana passada. Uma camisa amarela berrante, de óculos escuro, bermudinha justa, também militante dos grupos LGBTs, passeava sorridente pela calçada da diversidade. Aí o meu amigo prontamente disse, “foi com essa mulher que você ficou?”. Nem tinha percebido, na verdade. Ele continuou: “será que eu vou ter que me rasgar também?”. Ainda bem que essa frase foi seguida de um riso não de escárnio, mas de cumplicidade. Agora imagina, se ele que é articulado e esclarecido politicamente se permite a certos comentários, imagine o gay burguês de família cristã, que mal consegue sair do armário (para os outros, né, mana, porque no quarto, nas redes sociais adultas e nos banheiros da faculdade...)?

Não estou querendo dizer que isso é homofobia. Não gosto de banalizar o termo. Mas há certamente um estranhamento fora do normal, um deslocamento desnecessário. Sei lá, talvez o fato de ainda usarem roupas masculinas. Mas aí seria o caso de se perguntar se as travestis e transexuais recebem um tratamento mais digno, o que acho difícil.

E não, não se trata de negligenciar o gosto de cada um. Repito: todos somos livres para se sentir atraído por quem quer que seja. O que ocorre é que a aversão à gay pintosa é acompanhada de um preconceito que escancara. Muitas vezes, a bicha nem precisa dizer nada, basta um simples andar nas ruas para que os machões da vigilância alheia encarem-na com desdém (e alguns, com uma mistura de desejo insólito), revelando, na verdade, o medo pelo diferente, e não exatamente apenas uma expressão de gosto por determinado tipo de parceiro. Afinal, não precisa tomar justamente esta característica como seu cartão de visitas. No lugar de “Olá, me chamo Daniel, sou dentista e adoro cinema”, você diz “Olá, sou Daniel, não curto afeminados e sou discreto”. É mesmo necessário isso? Ou é puro medo de imiscuir-se ao que você abomina, dizendo para si mesmo que, de maneira nenhuma, tem preconceito? Sei...

Não sou hipócrita. Adoro “macho” com cara de “macho”, mesmo sabendo que posso problematizar horrores esse “macho” de quem falo gostar. Amo pêlos e aquela pegada forte. Mas o que é uma preferência diante da imensidão do mundo, diante das possibilidades de se relacionar, seja no sexo, seja na amizade, seja dividir o banco do avião com uma travesti sem ficar se preocupando no que a comissária vai pensar.  Pois não me venha me dizer que essa aversão toda nada tem a ver com o medo de descobrirem que você "curte". É bem isso mesmo. Isso tem mais a ver com seu armário particular do que com a imagem do outro.

O meu afago é saber que, depois de umas cervejas , o bate-cabelo naquela boate gay mais pererequinha da cidade, consegue animar mais do que o rock psicodélico que você faz questão de anunciar ser fã. Claro que você pode gostar de um Led Zeppelin e curtir a Lady Gaga numa boa. Agora pense, mesmo amando os dois estilos, há aqueles homens que fazem sexo com homens que vão negar até a morte curtir uma Rihanna, e esbravejar com gosto serem fãs de Heavy Metal. Cada um faça o que bem entender. Só não me venha se achando menos gay por isso.


No final das contas, ainda há algo pior: quem estenda esta divisão comportamental entre os ativos e os passivos. É muita dissimulação pra uma mente só, olha. Por isso que eu gosto delas, não tem medo, elas peitam, elas lacram. Confesse que é esse seu principal recalque: a liberdade. 

12 de maio de 2015

O amigo hétero

Dois amigos, um gay e um hétero conversavam em frente a uma Igreja:
- Que saber, eu não quero ser mulher...
- Eu também não.
- E também não tenho a mínima vontade de sair por aí gritando minha sexualidade.
- Eu também não quero isso.
- Sei lá, queria algo mais íntimo... Eu queria casar nessa Igreja!
- Eu também!
- Eu queria ter filhos.
- Eu também...
- Dois. Ou talvez três...
- Talvez.
- Mas sabe, eu ainda não encontrei a pessoa certa.
- E sabe que eu também não?
Momento de reflexão.
- Eu não entendo porque dizem “ditadura gay”, você entende?
- Não.
- Afinal, gays não querem privilégios, querem apenas os mesmo direitos que os casais héteros, concorda?
- Claro que sim.
- Andar de mãos dadas, demonstrar afeto em público, poder se beijar no final da novela das oito, cantar alguém do mesmo sexo com a mesma facilidade que um homem a uma mulher ou vice-versa, chamar os sogros para o almoço de Natal, apresentar o companheiro ao bisavô de oitenta e quatro anos...
- Verdade.
- E mesmo a Lei anti-homofobia, não cria privilégios, já que a Lei é contra discriminação e preconceito por qualquer orientação sexual e qualquer desigualdade de gênero.
- Concordo.
- E o amor entre pessoas do mesmo sexo é tão natural, tão óbvio, mesmo entre outras espécies na natureza.
- Hã-ham.
Mais uma pausa.
- E quando homossexuais reivindicam ser uma família, é tão clichê, adotar,  casar, é tão clichê, não acha?
- Clichezão.
- Sinceramente, não sei por que alguns têm medo.
- Nem eu.
Mais uma pausa.
- Quer saber, cansei dessa hipocrisia!
- Eu também.
Eles se olharam.
- Me beija!
- O quê?
- Me beija, cara!
- Você tá maluco, eu não sei...
- E precisa saber beijar?
- Não, você entendeu errado.
- Um beijo seria um ato político, para mostrar às pessoas que vêm a esta Igreja, e você deve concordar comigo que essas pessoas precisam de um choque de realidade.
O outro fica pensativo. Pensativo.
Passado uns três minutos, ele concorda, “mas só um selinho”, avisa.
- Quer saber, esquece.
- O quê?
- Esquece essa historia de beijo!
- Mas por quê? Eu juro que não tenho mau hálito.
- Não é isso. Só acho que já é demais desnaturalizar um ato, como um beijo, que deveria ser a troca de carinho e afeto dos mais íntimos, para então se tornar algo pragmático, um meio para almejar outros fins. Perde-se toda a sua concepção original, você não acha?
- Verdade – diz, meio confuso.
Então, o rapaz que propôs o beijo dá meia-volta, já cansado daquele ambiente.
- Bem, agora vou falar com a Fernanda, temos que começar os preparativos para nosso casamento.
- Ok.

E o amigo gay fica ali, absorto. Como esses héteros estão arrojados! 

8 de maio de 2015

Olívia

OLÍVIA
(Organização de Livre Identidade e Orientação Sexual)

Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor

ORGANIZAÇÃO

Já ia dar dez horas da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.

Foi desgastante. Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama quentinha.

Uma semana depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos, carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte, sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali segue que me deixa enfurecido.

Até que um vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta, aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!

Não saberia dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me bate com força. É hora de fazer mais.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Que a homofobia se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra proferida?

Ela estava ali no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos vermelhos. Fui tomar suas dores.

Tinha acabado de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia segurar o seu choro.

Convidei-a para a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar. Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então, subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando, mas se remoendo em desconsolo.

Ao fundo, um muro pinchado com os seguintes dizeres:

“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”

Eu apenas lhe mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se levantou para enfim agir, sentir-se viva.

Ela pegou a tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo. Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda restasse a seguinte mensagem:

“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.

E ela, enfim, sorriu.


INTEGRAÇÃO SOCIAL

Discussão acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.

Cotas, cotas, e mais cotas. Desse jeito fica difícil.  

Até que a única travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.

E por fim, concluiu: era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!

Ficamos todos boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para o bom senso”!


VALORIZAÇÃO DAS COMUNIDADES

Primeira ação integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias, muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava bonito.

Eu não compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente minorias.

Foi então que uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100 filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com personagens principais somente do gênero feminino.

Fiquei pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e héteros ainda dominavam a cena.

Até que um rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo, especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me dava por satisfeito.

Na verdade, não era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria, enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio. Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era minha chatice habitual mesmo.

Então ele me deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.

Li em uma semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?

Fui falar com o gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”. E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.

De fato, nada era necessário, então. Mas como assim?

Ele apenas sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se divertindo.

“A fama dessa escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.

Perguntei-lhe se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.


INFORMAÇÃO

Uma pena que a televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos, enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.

Foi interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar. Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?

Foi então que um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida. Estava tenso, nervoso.

Para completar, ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.

Ele me confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor não.

Fizemos o teste e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.

Fiquei estarrecido. Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.

Já próximo ao término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é perdê-lo por isso”.

Era difícil imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato valem muito a pena.


AMOR

A dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.

À saída da reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala: seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta durante as próximas refeições.

Assei o pernil no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da bagunça. Isso me machucava muito.

O jantar foi servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.

E ali no vídeo estava o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário, sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros, cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais, embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada, uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor vivido pelos pais de mesmo gênero.

Uma lágrima escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou. Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.

De fato, a dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa, e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.

O Estado Laico é um embuste

Já um tempo venho me posicionando deslocadamente em relação ao movimento LGBT. Creio que, aos poucos, vou me tornando uma pessoa não quista, e com certa razão: trata-se de um movimento político, portanto, ideais devem ser bem seguidos e defendidos.

Falo isso em relação a um tema que, quanto mais eu leio, mais (re)afirmo minha convicção: o Estado Laico é um embuste. Sim, porque essa história de defender que religião não se deve misturar à política, é uma demagogia tremenda. Ora, por que não? Por que eu não posso levar ao Estado as demandas provenientes de uma moral que eu ache certa?

O problema é que a religião cristã é uma farsante. A bancada evangélica, com o perdão do termo, só existe para conseguir voto dos cordeirinhos, não apresentam nada interessante. Antes fosse uma Teologia da Libertação que fizesse eco no Congresso. Aliás, está lá para barrar projetos de Lei liberais e progressistas, em favor da “família” e dos “bons costumes”. Então, meus caros, veem se entendem: a democracia pode sim aceitar as vozes religiosas, mas não essas que estão aí, que mais pregam o ódio, e não conseguem pensar além da condenação moral, especialmente em relação ao corpo.

É por isso que eu entendo perfeitamente o brado a favor do Estado Laico. É, na verdade, um brado contra o fundamentalismo religioso. É o escudo que se tem, é a defensiva, é o contra-argumento. Mas o Estado Laico que se brada, na verdade se assenta contra o proselitismo, a favor da pluralidade e da diversidade. Então não seria propriamente um Estado Laico, porque é um Estado Laico que se define enquanto perspectiva de Estado a favor da liberdade religiosa, ateísta, e também contrária a aceitar dogmas totalizantes. Ou seja, é uma definição, digamos, capenga e abrangente.

Resumindo: religião pode sim penetrar o Estado. Não há nada de mais. O que não se aceita é o fundamentalismo. Aí entra outra pergunta: seria a religião necessariamente fundamentalista? Duvido muito. Porém, fundamentalistas religiosos de fato não conseguem entender o que seja isso. Suas perspectivas de que determinado comportamento leva à salvação, ao bem comum, engole individualidades e formas de dispor sobre o corpo, sobre a sexualidade, sobre os prazeres que os deixam cegos. Eles acreditam fielmente que os LGBTs são um declínio moral, ao passo que tudo o que os casais mais querem é se tornar família tradicional.

Mas o fundamentalismo é assim mesmo. E é fácil explicar: se a religião X condena, por exemplo, a homossexualidade, os fundamentalistas vão querer que todos pensem assim. Quem pensar fora, está condenado, é ignorante, é cego. E veja bem, quando um homossexual busca seu direito, ele não fere o direito de nenhum hétero. Na matemática, ambos sairiam com direitos garantidos. É diferente, porém, quando se nega o direito a este mesmo homossexual, uma conta que dá direitos pra uns, mas exclui outros. Os pluralistas vão defender o bem-estar de todos. Os fundamentalistas vão defender sua moral e que sua moral seja a moral de todos. Não há lógica.


Só acho que a bandeira da diversidade e do pluralismo deve estar mais visível. Quando se brada a favor do Estado Laico, fica parecendo birra. Cria-se virtualmente um inimigo, e é justamente isso que os líderes religiosos querem, rivais. O que o movimento LGBT precisa entender é que a bandeira do pluralismo abarca todos. Se for isso o Estado Laico, então me dou por satisfeito. Mas na política, os termos nos engolem. E o nosso pensamento de revanchismo parece que não consegue se desenvolver sem fazer inimigos.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...